Star Wars – Os Últimos Jedi

ESSA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS DE STAR WARS – OS ÚLTIMOS JEDI

Depois do sucesso de Star Wars – O Despertar da Força e todas as perguntas deixadas, muito se esperava do seu sucessor, Os Últimos Jedi. Um filme que, além de ter a responsabilidade de seguir o sucesso do inicio dessa nova jornada, ainda vinha com a responsabilidade de ser o filme do meio, espaço dedicado aos filmes de momentos mais importantes da saga, segundo muitos fãs.

Com esse peso nas costas, o diretor e roteirista Rian Johnson nos entrega um longa competente e que certamente acrescenta não só aos questionamentos do episódio VII, mas também para o universo da franquia como um todo. Começando seu longa exatamente onde o anterior havia terminado, Johnson aposta em um roteiro com viradas e quebras de arquétipos nunca antes vistas em Star Wars. Uma escolha que pode não agradar muitos, mas certamente tira o receio de termos outro filme fazendo um espelho narrativo completo de outro filme da saga.

Os Últimos Jedi acompanha a última célula dos Rebeldes fugindo do ataque final da Primeira Ordem para aniquila-los. Paralelamente, vemos Rey tentando convencer a lenda viva e último Jedi, Luke Skywalker, a ajudar a causa e impedir os planos do supremo líder Snoke. Sabendo dividir seus personagens em diversos núcleos e missões, o longa utiliza bastante tempo para aprofundar os personagens antigos e também desenvolve os apresentados nesse oitavo episódio. Finn e Rose, Luke e Rey, Leia e Poe, Snoke e Kylo Ren são as duplas que acompanhamos durante o longa, mas as suas histórias vão se entrelaçando de maneira orgânica e resultando nos momentos clímax da obra.

O cuidado com os seus protagonistas sempre foi uma grande qualidade de Star Wars e em Os Últimos Jedi, por termos atores em seu melhor momento na franquia, esse mérito alcança um novo patamar. A direção deixa seus atores trabalharem e e dá tempo para que que todos brilhem e entreguem as diversas facetas que seus personagens têm dentro de si. Há também pontos de virada essenciais para que o público entenda o amadurecimento e as jornadas, trabalhadas de maneira não convencional, do herói, do ancião e do vilão que não seguem mais a estrutura clássica do monomito de Campbell, mas ainda assim entregam os estereótipos que precisamos em cada um dos seus protagonistas.

No entanto, da mesma maneira que o filme explora seus protagonistas, ele descarta alguns coadjuvantes que poderiam ter um destaque, como a personagem de Gwendoline Christie, Phasma. Essa falta de preocupação com os personagens periféricos, somado ao fato do filme não expandir o universo ou apresentar um senso de urgência sobre o resto da galáxia, acaba interferindo na construção de tensão da eminente guerra, uma vez que não vemos suas implicações para além daquela célula de resistência. Há a menção do abandono da esperança, mas não de uma maneira que faça o público senti-la de fato, o que torna um filme focado no crescimento de meia dúzia de pessoas de uma galáxia em guerra que sua população, aparentemente, sequer liga para o caos eminente. Esse problema ainda se agrava ao pensarmos que a missão de Finn e Rose, que ocorre com uma série de saltos temporais e desculpas narrativas para ser executada, poderia muito bem explorar de maneira mais enfática as periferias e os civis afetados, coisa que os livros da franquia fazem tão bem.

Há também o uso excessivo de piadas que, embora funcionem em sua maioria, acabam quebrando muito da tensão de momentos importantes. Destaque principalmente para a primeira sequência do longa que retoma outro momento de O Despertar da Força, mas aqui acaba se estendendo no alivio cômico. A direção acerta em não deixar seu alivio cômico nos personagens de sempre, mas não soube dosar em alguns momentos.

O roteiro de Johnson, no entanto, apresenta mais méritos do que problemas, apesar de só parecer engrenar e mostrar os propósitos das suas quebras de expectativa a partir da segunda metade do filme. Johnson conta ainda com uma direção de arte impecável que entrega algumas das melhores sequências de toda a franquia e uma montagem que não só homenageia a trilogia clássica na escolha de transições e cortes, como também entrega, visualmente, subcamadas para o roteiro.

A fotografia do filme é um show à parte. Além dos enquadramentos e cortes que intensificam a tensão, a ação e até a melancolia das cenas, o filme consegue criar diversas rimas com momentos emblemáticos da saga, especialmente nas cenas que envolvem Luke Skywalker. A escolha de cores contribui para essas rimas e acrescenta profundidade nos momentos certos, o laranja do pôr do sol gerando uma melancolia e remetendo ao início da jornada que vimos em Uma Nova Esperança, a sala vermelha de Snoke, o branco em contraste com vermelho na batalha da salina são alguns pontos de destaque.

As cenas de guerra, sejam em terra ou no espaço, também se beneficiam da direção de arte do filme e voltam às origens da space opera que a trilogia clássica buscava. O filme remete diretamente as Guerras Mundiais e sabe utilizar dessa referência histórica para criar um tom dramático necessário para o que vem sendo construído. Destaque, principalmente, para a cena da destruição do cruzador Rebelde que é um dos momentos mais bonitos da saga.

Vale ainda ressaltar a trilha sonora e a direção de som do filme. Star Wars, por ser uma franquia de tanto tempo, já conta com temas emblemáticos e que evocam a ansiedade dos fãs, mas em Os Últimos Jedi até mesmo os personagens novos passam a ter suas trilhas com destaque tão grande quanto. Além disso, a edição de som do filme acerta novamente nas batalhas espaciais e no impacto que os tiros precisam causar, mas o longa também acerta na utilização do o silêncio em momentos de destruição de naves que, graças a ausência de som, passam a sensação perfeita de desespero e “falta de ar” que as cenas propõem para o público.

Star Wars – Os Últimos Jedi é um filme que certamente se arrisca em subverter grandes tropes de uma franquia tão consolidada como é Star Wars, mas entrega uma obra recompensadora. Apesar dos seus problemas de roteiro e má utilização de alguns personagens, Rian Johnson apresenta um filme que respeita as suas raízes e mostra o amadurecimento dos seus protagonistas.

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About Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

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