Crítica: Okja é a reflexão dos nossos hábitos pela perspectiva de uma criança

Em Okja, Bong Joon-ho utiliza do lúdico em contraste com a realidade para criar uma crítica ao nosso mundo

A relação de amizade entre uma criança e um animal de estimação talvez seja uma das mais puras que podemos ver. Como diz o ditado, o cão é o melhor amigo do homem, mas em Okja, novo filme do diretor Bong Joon-ho e distribuído pela Netflix, vemos que esse ditado serve para qualquer animal.

Com enredo simples, o diretor sul coreano nos entrega uma trama complexa e com várias discussões relevantes para nossa sociedade. A exploração dos animais, a importância das organizações de defesa, a manipulação que os pequenos fazendeiros sofrem pelas grandes industrias, o consumo de alimentos geneticamente modificados. Tudo isso é apresentado direta ou indiretamente e Bong consegue chocar ainda mais seu público por se tratar de uma história sendo vista na ótica de uma criança.

A relação de Mija (Ahn Seo-hyun) e Okja comove o espectador que, desde um belíssimo primeiro ato, percebe como aquela amizade entre humano e porco é sincera e bonita. Mas, por mais bonita que seja, nem mesmo essa relação está salva da crueldade do mundo e é aí onde o filme mais acerta. A aventura vivida pelas protagonistas segue um ritmo previsível e com viradas até obvias, mas que sabem dosar e misturar os momentos cômicos e dramáticos de tal maneira que tudo se encaixa de maneira orgânica. Bong sabe oscilar as imagens do filme de maneira tão fluída que o espectador, quando menos espera, se dá conta de que saiu daquele ambiente vívido e colorido da natureza e entrou num abatedouro escuro e cheio de sangue. Mesmo os personagens mais caricatos como os de Tilda Swinton Jake Gyllenhaal se justificam na sátira evidente que representam e pela quebra do ridículo que vai acontecendo conforme vemos o amadurecimento da trama.

No entanto, se a caricatura dos membros da empresa é necessária, o mesmo não pode ser dito para os personagens da ALF. O núcleo dos ativistas acaba criando esteriótipos desnecessários da comunidade vegana e agem de maneira incoerente com o discurso apresentado pelos mesmos durante o longa. Uma escolha errada que compromete muito o segundo ato, mas não o filme todo e que, no caso do personagem de Steve Yeun, se justificam até certo ponto.

Outro fato que acaba comprometendo o longa é qualidade dos seus efeitos, em especial na criação da super porca. Por se tratar de um filme com um orçamento reduzido, essa falha já era esperada, mas em determinados momentos do longa fica nítido o quão artificial é a “não presença” de Okja e como a personagem de Ahn Seo-hyun está realmente sozinha no plano. Mas esse problema acaba sendo contornado graças ao trabalho de Seo-hyun e ao trabalho de direção que consegue entregar cenas intensas mesmo nesses momentos.

Okja é um filme que se faz necessário e não tem medo de expor suas críticas ao capitalismo e ao modelo de industria alimentícia que temos. Com uma história que sabe trabalhar bem o lúdico e a realidade, Bong Joon-ho nos entrega um filme bem executado, bonito esteticamente falando e que com certeza irá repercutir tanto pelas suas qualidade como obra cinematográfica quanto pelo discurso no qual se apoia.

 

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Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

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