Crítica: “O Orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares”

No primeiro livro dessa trilogia peculiar, Ransom Riggs oferece ao leitor um enredo cheio de contrastes e questionamentos sobre nossas diferenças.

A primeira vez que vi o “O Orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares” na livraria, tive uma impressão errada. Pela capa, pela sinopse, mas principalmente pelas fotos espalhadas pelo livro, pensei que fosse uma história de terror. Ou, no mínimo, um suspense macabro. Só muito tempo depois que eu entendi que a obra não era sobre isso. Sim, o livro tem seus momentos mais macabros. Muitos eventos e reflexões são envolvidas por uma neblina espessa. Mas o livro é também uma grande aventura, recheada de crianças adoráveis. No fim das contas, fiquei feliz de ter dado uma chance a essa história, pois ela é, definitivamente, peculiar.

“O Orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares” foi publicado originalmente em 2011. O livro chegou ao Brasil em 2016, pelas editoras Intrínseca e também pela Leya. A obra tem autoria de Ransom Riggs e chegou a ser adaptado para filme também em 2016, com direção de Tim Burton. O livro é o primeiro título de uma trilogia. A história gira em torno de um neto buscando respostas sobre o passado de seu avô. Jacob Portman sempre ouviu histórias fantásticas de seu avô, Abe, quando era criança. Contos fantásticos sobre crianças diferentes, com poderes e atributos especiais. Essas crianças viviam em uma ilha, sob a tutela da misteriosa Alma Peregrine. À medida que Jacob cresce, ele começa a desconfiar e desacreditar dessas histórias. Mas quando seu avô morre subitamente e deixa uma missão misteriosa para o seu neto, Jacob se vê obrigado a desvendar a verdade por trás das fábulas.

A capa do livro
Personagens peculiares

Um dos pontos fortes da obra está no elenco de personagens criado por Riggs. Os personagens principais são, obviamente, as tais crianças peculiares. Cada uma delas possui uma habilidade ou atributo específico que as destacam dos humanos, mas além disso, todas possuem personalidades muito distintas. Emma, a menina que divide o protagonismo da trama com Jacob, é uma líder corajosa e de pavio curto, mas que no fundo tem suas inseguranças. Enoch é o sarcástico e eternamente pessimista membro da equipe. Millard, o menino invisível, é muito estudioso, um rato de biblioteca, sempre pronto a emprestar seus conhecimentos aos amigos. Esses são apenas alguns exemplos desses personagens ricos presentes na trama.

Também quero destacar um outro personagem que, embora não seja um “peculiar”, tem um papel importante na trama: o pai de Jacob. Franklin Portman é um homem de meia-idade cheio de sonhos e ressentimentos. Ele sonha em escrever e publicar seus muitos livros, mas nunca consegue colocar em prática seus planos. Os ressentimentos não são apenas por seus sonhos esquecidos, mas também pela péssima relação que ele teve com seu pai, Abe. O avô de Jacob sempre foi amoroso com o neto, mas foi um pai distante, com a cabeça em outro lugar. Franklin assim acrescenta à história um contraponto válido a Jacob: enquanto o garoto admira seu avô e se encanta pelo mundo peculiar, o pai apresenta os problemas que essa realidade paralela causou, indiretamente, em sua vida.

“Agarramo-nos a nossos contos de fadas até que o preço por acreditar neles se torna alto demais”
(O Orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares)

 

Uma narrativa de contrastes

Mas a principal qualidade do livro reside em sua narrativa recheada de contrastes. No início do texto, falei que a atmosfera da obra é sim um pouco sombria. Algumas cenas são descritas de maneira muito forte. Um dos principais antagonistas, os Etéreos, são monstros horríveis devoradores de animais e pessoas. Mas ainda mais pesado do que esses elementos são as reflexões sobre a perseguição sofrida pelos peculiares. O livro intercala muito bem o debate sobre a guerra mágica entre Etéreos e Acólitos x Peculiares e uma outra questão muito mais real, mundana: o nazismo.

Boa parte da história se passa durante a segunda guerra mundial: o avô de Jacob era judeu e quase foi capturado e morto durante o conflito. Logo, tanto as crianças peculiares quanto os judeus e outras minorias guardam uma semelhança: são perseguidos por homens maus simplesmente por serem o que são. Ao mesmo tempo que o livro apresenta momentos mágicos, felizes, de muitos risos e aventuras, mas a narrativa nunca deixa de receber uma pincelada mais escura, que deixa sua marca para sempre nos eventos ocorridos.

“A peculiaridade que as fazia ser caçadas era apenas o fato de serem judias. Eram órfãos de guerra, levados até aquela ilhota por uma maré de sangue. O que os tornava fabulosos não era o fato de terem poderes milagrosos. Escapar dos guetos e das câmaras de gás já era algo milagroso por si só”
(O Orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares)

As fotos que enriquecem e diferenciam o livro

Se por acaso o livro não tivesse as fotos, a narrativa ainda funcionaria. Mas com esse recurso de inserir fotos reais em meio à história, a obra adquire um caráter único. Todas as fotos foram recolhidas pelo autor e quase todas retratam pessoas, locais, paisagens reais, mas apresentam uma certa “bizarrice”. Riggs, de maneira inteligente, insere as fotos durante a narrativa de modo a ilustrar algumas situações. Por exemplo: quando a menina flutuante, Olive, é descrita, logo em seguida podemos ver uma foto dela.

Esse tipo de estratégia é usada em diversos momentos e, a meu ver, auxilia o leitor a imaginar algumas das situações e personagens apresentadas. Eu, por exemplo, tenho uma imaginação visual péssima, então considero muito bem-vinda qualquer representação visual da história – fotos, desenhos, pinturas, etc. Mas até para os que possuem facilidade em imaginar personagens e cenários, as fotos são importantes. Elas ajudam a dar o tom certo à trama, mostrando como que alguns peculiares ou locais não são tão bonitos, ou ao contrário, não tão esquisitos quanto a descrição sugere.

Exemplo de foto inserida no livro
Conclusão

“O Orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares” é um livro cheio de personalidade. Com um elenco forte, uma narrativa que encontra o equilíbrio certo entre debates pesados e a inocência de uma aventura infantil e o apoio de fotos que ilustram e dão o tom certo à narrativa, o livro encanta pelos seus contrastes. Fiquei ansioso para ler o segundo livro da trilogia e continuar acompanhando a aventura dessas crianças bastante peculiares.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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