Crítica: “Homem Aranha – Entre Trovões” é uma obra digna da história do personagem.

“Homem-Aranha – Entre Trovões” peca nos combates, mas apresenta aborda bem o cotidiano de Peter Parker.

Não é difícil tirar dinheiro da minha carteira. Um dos métodos mais eficazes exige apenas dois passos: lançar um livro e colocar um selo da Marvel nele. Foi seguindo esse ritual fanático e bem custoso que dei uma chance ao primeiro título dessa linha de Marvel Books, o excelente “Guerra Civil” – inclusive deixo o link da minha crítica aqui: http://drophour.com.br/2014/12/03/review-guerra-civil-livro/. Já que o retorno foi bem positivo, resolvi partir para o segundo livro dessa linha, o “Homem-Aranha – Entre Trovões”. Apesar de não ser um relâmpago digno de um deus, o livro se sai bem na tarefa de levar o universo do cabeça-de-teia para a literatura.

“Homem-Aranha: Entre Trovões” é escrito pelo americano Christopher L. Bennett, autor de alguns trabalhos relacionados à Marvel mas principalmente à “Star Trek”. A editora é novamente a Novo Século, e a obra foi lançada oficialmente em 2014. Eis um detalhe mais importante sobre o título: a história contada no livro NÃO É uma adaptação de nenhum arco das HQs, mas sim totalmente original! Apenas para situar o leitor, ela ocorre num intervalo impreciso entre fases do amigão da vizinhança, mais ou menos entre seu primeiro encontro com Morlun e antes dele se juntar aos Vingadores.

A capa do livro apresenta o Homem-Aranha…entre raios. É, não foram muito criativos na arte. 

Vamos à sinopse do livro. Peter Parker segue sua vida mais ou menos, dividindo seu precioso tempo entre a vida de professor municipal de ciências, seu casamento conturbado com Mary Jane e sua incessante luta contra o crime como o Homem-Aranha. Apesar dos seus esforços para proteger os cidadãos de Nova York, ele não é uma unanimidade: há quem o considere um esquisitão, uma aberração, um maluco. Ou até mesmo uma ameaça, como J. Jonah Jameson faz questão de reafirmar. Só que agora Jameson tem um blog pessoal no qual se sente livre para destilar seu veneno contra seu arquirrival. E quando um roubo à joalherias com direito a presença de Electro e super-robôs dá muito errado, Peter resolve que já está na hora de começar a responder ao seu antigo chefe na mesma moeda.

As partes do livro que envolvem a vida civil de Peter Parker são muito interessantes. Sua relação fraternal com seus alunos, seu eterno medo de ver mais entes queridos seus serem feridos por causa de sua vida dupla, o divertido relacionamento com sua esposa, e claro, sua complexa relação com Jonah Jameson tornam esse o carro-chefe do livro. Como é divertido e recompensador poder estar na cabeça de Peter Parker e compartilhar um pouco da experiência de vida desse que é um super-heróis psicologicamente mais ricos dos quadrinhos!

Infelizmente as partes na qual acompanhamos o Homem-Aranha em ação não correspondem à altura. As lutas nas quais o herói se envolve são, em grande maioria, chatas. O primeiro motivo diz respeito aos oponentes, que são, 90% das vezes, robôs. O segundo é porque toda a elasticidade, a coisa plástica, estética, acrobata que tanto impressiona em seus combates acaba sendo aniquilado pela mídia: descrever uma batalha do homem-aranha é muito menos impactante que vê-lo em ação. Acreditem em mim quando digo que boa parte das lutas retratadas no livro são tão difíceis de compreender que simplesmente tinha vontade de pular para o fim dela para descobrir o que de fato aconteceu.

“Jameson riu com escárnio.
– Ninguém é herói, Robbie. Os heróis são só uns valentões ególatras com um bom assessor de imprensa. Todos temos nosso ado negro, nosso egoísmo, nossa raiva, nosso ódio”
(J. Jonah Jameson – Homem-Aranha: Entre Trovões)

É bom ter em mente que, apesar da mídia ter mudado (de HQs para um Livro), ainda estamos falando da Marvel e de uma história do Homem-Aranha. Ou seja: não espere um roteiro extremamente complexo ou reviravoltas que demandem o máximo de seu intelecto. Há algum suspense ali, algumas boas sacadas, mas nada demais. O que gostei muito foi o grande número de referências à personagens e sagas antigas do universo do escalador de paredes. Um fã da Marvel se sentiu em casa durante essa leitura.

O que realmente me impressionou nesse livro foram algumas questões levantadas com relação ao poder das mídias em nossa sociedade. Desde colocações importantíssimas sobre qual deve ser o real papel da imprensa até questionamentos sobre como moldamos nossas opiniões a partir da opinião pública, a obra oferece ao leitor um material pouco comum no gênero super-heróico. Menos pancadaria, mais reflexão sobre o que significa termos super-humanos globais em um mundo cada vez mais tecnológico e midiático. Seria o papel deles nos vigiarem, ou nós é que devemos usar todas essas ferramentas ao nosso dispôr para vigiá-los?

“O mundo está ficando muito mal educado. Os líderes estão ocupados brigando uns com os outros em vez de procurar soluções reais para seus problemas. Não está dando certo, Peter. Porque as pessoas estão se esforçando tanto para ‘ganhar’, ou pelo menos, fingir que ganharam, que não tentam resolver nada. Estão se esforçando tanto para não parecer errados que não questionam se poderiam aprender alguma coisa com os outros. E ninguém ouve a verdade entre trovões de acusação”
(Tia May – Homem-Aranha: Entre Trovões)

“Homem-Aranha: Entre Trovões” faz jus ao universo particular do cabeça-de-teia dentro da Marvel e apresenta-se como uma leitura despretensiosa e interessante para qualquer fã. Se os embates super-heróicos decepcionam, pelo menos o livro compensa com ótimas passagens relativas ao cotidiano de Peter Parker.

80

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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