Crítica: “Death Note” da Netflix é uma ofensa aos fãs e ao mangá.

Se combinarmos direitinho, podemos todos fingir que a versão da Netflix para Death Note nunca existiu.

Quando saíram os primeiros trailers da adaptação da Netflix para Death Note, eu temi pelo pior. Pelo pouco que podíamos ver, senti que o filme não teria a essência da obra original. Os meses se passaram e o dia da estreia chegou. E que prometia ser uma decepção tornou-se um insulto. O Death Note da Netflix não é apenas ruim: é um deboche à história original. Esse filme é uma ofensa aos fãs do mangá e do anime. E o pior de tudo: nem como obra original ele convenceria.

Death Note, originalmente, foi um mangá publicado entre 2003 e 2006 pela Shonen Jump. A obra tem autoria do roteirista Tsugumi Ohba e do desenhista Takeshi Obata. A história fez tanto sucesso que recebeu adaptações para anime, livros, filme live-action e até jogos. Infelizmente essa fama fez a empresa de streaming colocar seus olhos sobre Death Note, dando à empresa a ótima ideia de escrever e publicar seu próprio filme baseado na história. Hoje todos nós nos arrependemos disso.

A sinopse da adaptação é a mesma; Light Turner (o filme se passa nos EUA, então os Yagami assumiram um sobrenome americano) encontra um caderno no qual quando você escrever o nome de uma pessoa nele, esse indivíduo morre. Light então decide exterminar todos os malfeitores da raça humana, tornando-se “Kira“, uma espécie de salvador. O problema é que o filme da Netflix encerra sua fidelidade à obra original nesse momento: todo o resto é terrivelmente adaptado.

A perda da essência.
Olha que capas bonitas tinham os mangás originais. OBS; isso mesmo, não postarei imagem alguma do filme, só de sacanagem.

Quem já leu o mangá ou assistiu o anime, sabe que Death Note tem uma essência. A obra não é uma história de ação. Não é um bang-bang. Não é uma história de amor. Death Note é um suspense no qual as duas mentes mais brilhantes do planeta disputam, em uma espécie de jogo de xadrez mental, quem tem o direito de decidir sobre as vidas humanas: um deus ou a própria sociedade. Infelizmente, a Netflix simplesmente ignorou essa essência e preferiu escrever um filme sobre um romance adolescente com uma pitada de um caderno da morte.

O primeiro ato do filme já anunciava a tragédia. Light e Mia (originalmente Misa, mais uma adaptação no nome de personagem) vivem um flerte em seu colégio. Namoro esse concretizado quando o garoto exibe, orgulhoso, para a menina seu caderno capaz de matar. Juntos eles tornam-se uma duplinha do barulho que vai se vingar desse mundo injusto aterrorizando os bandidos e malfeitores. Nada mais Death Note do que isso, certo? Errado.

Personagens infiéis à obra original.

Essa abertura era sensacional, né?

Adaptações são sempre necessárias. Muitas vezes até bem-vindas. Algumas são polêmicas, mas são plenamente aceitáveis: L ser interpretado por um ator negro é completamente normal. O personagem não tem um background definido, muito menos etnia. O problema acontece quando essa adaptação muda totalmente a construção dos personagens.

Light não é mais o psicopata narcisista e manipulador do mangá. Agora ele é um adolescente rebelde, facilmente manipulado por metade do elenco, cuja construção psicológica é tão frágil que ele muda de opinião a cada 5 minutos. Misa tornou-se uma psicopata mais fria do que o próprio Light, o que não condiz com sua personalidade original. Infelizmente, no filme, ela não consegue ser mais complexa do que “vamos matar todos eles, Light!”. O L, o detetive mais brilhante do mundo, é um dos personagens mais passionais e descuidados do filme! Mas a maior aberração ficou por conta de Ryuk, o shinigami.

Ryuk, a grande aberração de Death Note.
Ryuk e suas maçãs, kkk

No mangá e anime, Ryuk é um dos muitos deuses da morte encarregados de dar fim às vidas humanas. Entediado do seu trabalho, ele deixa cair um Death Note na terra para poder se divertir assistindo a um mortal usando-o. A partir do momento que Light pega o caderno, ele torna-se um observador da história. Ryuk assume, na maior parte do tempo, o mesmo papel que o leitor do mangá. Ele não interfere. Ele não ajuda ninguém. Ele ri, come suas maçãs e assiste. Ele nem mesmo se dá ao trabalho de contar direito as regras de uso do caderno.

Entretanto, no filme da Netflix, Ryuk é praticamente o vilão da história. Ele é um demônio que instiga Light a matar pessoas. Além disso, Ryuk ainda ameaça Kira constantemente de que, caso ele não coopere com sua diversão, ele vai procurar outro que o faça. De espectador neutro, o personagem passou a antagonista invencível! Ryuk não pode morrer, então colocá-lo como demônio homicida é uma burrice tremenda, pois amarra o roteiro. Como vencer quem não ser vencido?

Muita ação e pouca reflexão.
O primeiro encontro, no mangá, entre os dois rivais.

A saída para esse dilema de Ryuk e para salvar parte do filme era ser fiel ao mangá ao menos nos duelos mentais e dilemas morais. Na obra original, L e Kira protagonizam duelos épicos, nos quais cada plano dos dois é pensado 3, 4 jogadas à frente, e o leitor acompanhava dezenas de reviravoltas que tornavam a trama envolvente e apaixonante. Esses embates entre os protagonistas eram sempre permeados por intensos debates morais sobre o que é a justiça. Já no filme da Netflix, sobram mortes grotescas, DR entre o casal assassino e muita correria.

O primeiro ato do filme é recheado dessas mortes grotescas das quais falei. As cenas tem tanto sangue, vísceras e brutalidade que pensei que estivesse assistindo algum filme de terror B. O segundo ato é o menos pior do longa: ele introduz, timidamente, algumas questões presentes no mangá. O significado moral da adoração de milhões ao propósito de Kira, por exemplo, aparece aqui. O problema é que rapidamente tudo fica em segundo plano para mais uma briga entre Light e Misa. O romance entre os dois jovens tem prioridade sobre o debate se é certo ou não usar o caderno!!!

Conclusão

“Death Note” da Netflix não deveria nem ter o direito de usar o nome da obra original. O roteiro é fraco, os efeitos especiais são dignos de um filme B ou C, as personagens são mal construídas e até a trilha sonora não acerta o tom. O filme nem mesmo se parece com o que Death Note deveria ser. Penso que todos nós deveríamos fazer um acordo e fingirmos que essa aberração nunca existiu. Seríamos mais felizes assim.

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About Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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