Crítica: “Cyberstorm” mistura realidade com ficção em uma narrativa inquietante.

Em “Cyberstorm”, Matthew Mather leva aos leitores a aterrorizante experiência de viver em uma cidade do século XXI totalmente às escuras.

Para escrever essa crítica, eu usei energia elétrica. E Internet. E bebi água durante esse tempo. Também comi um chocolatinho. Você deve estar lendo esse texto em seu notebook, tablet ou smartphone, todos eles conectados à internet. Gastou energia ou bateria do seu aparelho nesse processo. Felizmente nós, cidadãos abastados do século XXI, temos acesso a esses recursos. Mas e se de uma hora para outra não tivéssemos mais luz? Nem internet. Nem mesmo água saindo de nossas torneiras. Ou guloseimas nas nossas geladeiras. E pra piorar, e se nesse momento nossa cidade ficasse isolada do resto do país pelas péssimas condições climáticas? Já imaginou como seria? Em Cyberstorm, Matthew Mather descreveu para nós exatamente como isso seria. A situação que vemos não é nada bonita, mas o livro, por sua vez, é excelente.

“Cyberstorm” foi publicado originalmente em 2013 e chegou ao Brasil em 2015 pelas habilidosas mãos da editora Aleph. O livro, como já adiantei, é de autoria de Matthew Mather. A trama se desenrola em Manhattan, às vésperas do ano novo. Após uma forte turbulência política vivida entre Estados Unidos e China, o país norte-americano sobre um ciberataque. A Internet assim como todos os sistemas ligados a ela são afetados por um vírus fortíssimo que faz a cidade de Nova York simplesmente ficar às escuras. Somado a isso, uma suposta epidemia de gripe aviária se alastra pela cidade. E para piorar, uma tempestade de neve deixa a cidade quase que totalmente isolada do restante do mapa. São nessas condições caóticas que Mike Mitchell, um pequeno empresário do ramo de mídias sociais, deve proteger sua esposa e filho pequeno do futuro sombrio que os aguarda.

A capa do livro.
Foco na Tecnologia, mas também nos seres humanos.

Confesso que quando peguei Cyberstorm para ler, esperava uma enxurrada de descrições e debates sobre artigos tecnológicos. Em parte, estava correto. A Internet e seus hackers, sistemas, ciberataques, plataformas, servidores, etc. são sim uma das estrelas da companhia no livro. Matthew apresenta com profundida diversos debates sobre como usamos a internet, como empresas e indivíduos buscam no ciberespaço mecanismos para vigiar nossos movimentos, as vulnerabilidades do sistema como um todo, dentre outros. Entretanto, o autor apresenta essas discussões e tópicos em momentos pontuais da trama. Sim, os personagens discutem sobre essas e outras questões polêmicas, mas o livro não é só sobre isso.

A história não é apenas sobre máquinas, mas sobre humanos vivendo sem elas. Quando Nova York fica às escuras, os cidadãos tem de aprender a viver sem as comodidades que tanto amavam. Cada um a sua maneira, os personagens do livro se veem obrigados a lidar com a nova realidade que se apresenta. Alguns se desesperam; outros tendem a atacar seus colegas para sobreviver; também há os que permanecem calmos para poder lidar com a situação da melhor forma possível. Quando o blecaute tecnológico ocorre, as pessoas se veem obrigadas a mudar. E é gostoso acompanhar a narrativa desse processo.

Narrativa agoniante.

É interessante como o autor vai aumentando o grau de dificuldade da sobrevivência dos personagens no livro. Ao contrário de The Walking Dead, onde acompanhamos as pessoas lentamente aprendendo a sair do fundo do poço, aqui o fundo parece nunca chegar. A cada capítulo, há menos comida disponível. As condições de higiene ficam piores. A desidratação começa a tornar-se mais séria. A violência se intensifica. As doenças se proliferam. E essa escala de desgraça é desenvolvida de maneira tão lógica e real que por vezes sentimos na pele o desespero das personagens.

Não que o livro seja repetitivo: a situação piora constantemente, mas esse processo é dinâmico e quase sempre consegue inovar nos problemas apresentados. Além disso, os problemas macro são intercalados com situações do microcosmo. Se em um capítulo o autor disserta sobre a nevasca que se intensifica e dificulta a caminhada pelas ruas da cidade, imediatamente ele apresenta a dificuldade de Matthew e suas famílias ao lidar com os piolhos. Isso ajuda a equilibrar a trama.

Ótimo elenco de apoio.

Um ponto que me surpreendeu positivamente foi o elenco de personagens coadjuvantes da trama. Boa parte do livro se passa no edifício onde vive Mike, prédio que acaba tornando-se o acampamento de sua família e de muitos dos seus vizinhos. Os moradores formam o elenco de apoio da história. Quase todos são bem explorados e acrescentam algo à história. Pam é a enfermeira da equipe, enquanto seu marido Rory é o jornalista que propõe muitos debates sobre a tecnologia. Chuck é o melhor amigo de Mike e o sobreviventista da equipe. Daemon é o nerd viciado em computação. Irena e Aleksandr Borodin são os vizinhos russos acostumados com o frio e a violência da guerra. Esses e outros personagens ajudam a compor um elenco diversificado que oferece não apenas sequências de ação variadas, mas também pontos de vista distintos durante os debates.

A única nota negativa que devo fazer diz respeito ao protagonista. Mike é o narrador da trama, mas mesmo vendo toda a história por seus olhos, infelizmente não consegui sentir muito apego ao personagem. O protagonista, durante quase toda a trama, exala uma atitude de “tenho que proteger minha família a qualquer custo”. O problema é que o autor o explora muito pouco além disso.  Ainda que sua relação com os outros personagens exista, quase sempre a narrativa prefere reforçar seu elo com esposa e filho, sufocando Mike. Talvez tivesse sido melhor deixar o protagonista respirar mais na trama, explorando mais o seu passado, seus gostos pessoais, etc.

Conclusão.

“Cyberstorm” conta uma história que alterna entre ficção e realidade. Ainda que os eventos retratados sejam claramente um cenário pessimista para uma falência dos sistemas eletrônicos de uma cidade, não deixa de ser assustador perceber que grande parte do que é narrado pelo autor poderia acontecer amanhã caso um ciberataque em larga escala seja lançado. Recomendo demais a leitura tanto para quem gosta de uma história pós-apocalíptica mas também para os que curtem intensos debates sobre tecnologia, segurança, privacidade, medo e liberdade.

 

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About Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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