Crítica: Blade Runner 2049 é uma sequência necessária para expandir o universo apresentado em 82

Villenueve reforça a importância das discussões levantadas em 1982 com uma expansão de universo necessária

Em 1982, Hampton Fancher e David Peoples mostraram ao mundo, na direção de Ridley Scott, como um filme de ficção poderia inovar a sétima arte para além do que o gênero oferecia até então. Um enredo com questões filosóficas e reflexões sobre o que nos faz humanos foram alguns dos pontos que fizeram Blade Runner se tornar o clássico que é considerado hoje.

Agora, em 2017, Fencher e Michael Green, com a direção de Denis Villeneuve, retornam ao universo cyberpunk do filme de 82 com novos personagens, mas respeitando o filme anterior. Em Blade Runner 2049, vemos uma expansão de universo muito bem construída  não só no sentido narrativo, mas também nas discussões e técnicas cinematográficas.

30 anos se passaram e o roteiro sabe respeitar essa passagem de tempo

Se passando 30 anos após o clássico de 82, acompanhamos o caçador de replicantes K (Ryan Gosling), que, após achar os ossos de uma replicante, parte em busca de um suposto filho concebido por um androide. Partindo desta premissa, acompanhamos mais um noir investigativo repleto de paralelismos com a busca de Deckard (Harrison Ford) no filme anterior. Os questionamentos dos androides, a visão megalomaníaca e a comparação com Deus por parte da empresa que cria os replicantes, a atmosfera “suja”, mas futurista, que sabe brincar e referenciar clássicos dos anos 40 e 50 estão presentes no filme de Villeneuve.

O filme, no entanto, não é só uma autorreferência do seu precedente. As ideias apresentadas em 82 são aprofundadas e a evolução dos replicantes é muito debatida, principalmente por Niander Wallace (Jared Leto), dono da empresa que os fabrica atualmente. Nesse sentido, vale ainda ressaltar o quão complicado é dar detalhes da trama sem estragar a experiência do espectador, uma vez que o filme não nos entrega tudo de mão beijada, mas sim desenvolve e apresenta seus novos conceitos na medida que a trama se desenvolve (e ficamos pensando naquilo que vimos até depois dos créditos). Nesse sentido, o roteiro sabe trabalhar muito bem com o personagem de Ryan Gosling que, além de protagonista, funciona como os olhos do espectador, uma vez que já estamos ambientados com aquele universo, assim como o personagem, mas vamos sendo surpreendidos gradativamente com as revelações.

Apesar de termos um elenco que conta com nomes de peso como Harrison Ford, Robin Wright e o próprio Ryan Gosling, não temos muitos momentos em que as suas atuações sejam destacadas. Mas vale ressaltar a dinâmica de alguns personagens e a escolha perfeita de Gosling para um papel em que sua atuação, muitas vezes criticada por ser sem expressão, se encaixa perfeitamente. A cara de surpresa do ator encaixa de maneira perfeita com o personagem K e a sua interação com Joi (Ana de Armas) é um dos pontos altos do filme. Jared Leto que embora tenha a preocupação em representar de maneira fiel seu personagem cego, acaba tendo pouco tempo de tela e o que mais se destaca são os desdobramentos da filosofia do seu personagem do que o personagem em si.

A evolução tecnológica aliada ao excelente trabalho de fotografia entregam uma experiência únicCrítica: Blade Runner 2049a em Blade Runner 2049

Vale ainda destacar a estética do filme que mostra a preocupação de Blade Runner 2049 em respeitar seu antecessor não só no roteiro. Villeneuve entrega no seu filme a mesma estética neon-cyberpunk que já havíamos visto, mas que sabe utilizar dos efeitos visuais mais atualizados para entregar cenários ainda mais detalhados. A inovação tecnológica permite inclusive que o filme tenha mais cenas em ambientes aberto e uma experiência futurista menos artificial.

O visual, no entanto, não serve apenas para a ambientação, mas também funciona como uma experiência de imersão durante o longa e, a partir dessa experiência, o diretor utiliza de cenas longas para apresentar em tela os mínimos detalhes da história que está contando. Nada está em tela de maneira gratuita e as tomadas longas, que em algums momentos podem ser cansativas, não são apenas contemplativas em relação ao ambiente. Algumas cenas podem não ter uma relevância de fato narrativa, mas fazem parte do que Blade Runner propõe e permitem que o espectador processe tudo que está sendo discutido. É quando inconscientemente nos pegamos refletindo com o protagonista que vemos o cuidado e o mérito da fotografia de Roger Deakins.

A trilha sonora que homenageia a icônica de 82, mas não vai além

Por fim, coube a dupla Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer ter a difícil tarefa de cuidar da trilha sonora. Digo difícil por se tratar de uma trilha colocada no mesmo universo daquela criada por Vangelis em 82. Enquanto o compositor grego criou algo único para o primeiro filme e que integrava a construção do filme e ampliava a imersão naquele universo futurista, Wallfisch e Zimmer não conseguem entregar nada novo ou tão marcante quanto. Há uma referência clara a trilha sonora do primeiro filme, mas que não consegue sair da sombra da mesma e Zimmer, em alguns momentos, parece apenas emular suas trilhas anteriores (principalmente de A Origem) criando uma trilha que entrega um clima de ação que pode destoar da atmosfera proposta em Blade Runner 2049.

Conclusão

Blade Runner 2049 mostra que não é um caça níquel em um momento onde vemos tantas franquias sendo revividas com esse propósito. Com a sua expansão de universo e novas discussões filosóficas, o longa de Villeneuve reforça a importância dos questionamentos sobre a existência e o valor da humanidade. Em 1982 vimos a importância da ficção para discussões mais sérias e agora em 2017 só confirmamos como as angustias dos replicantes estão ainda mais atuais e necessárias.

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Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

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