Crítica: Atômica é o casamento perfeito entre ação e noir

Costumo dizer que um bom filme é aquele que consegue entregar várias camadas ao espectador, mas sem perder sua essência. Em Atômica, novo filme de David Leitch, essa máxima é preservada.

Um plano de fundo comum, mas com um enredo que explora seu potencial ao máximo

Em meio a eminente queda do muro de Berlim, um possível vazamento da identidade de diversos espiões ao redor do mundo acaba deixando as principais potências alarmadas com os possíveis danos que informações em mãos erradas podem causar. Lorraine (Charlize Theron) é então enviada para Berlim a fim de recuperar os dados e salvar o lado capitalista da Guerra de perder uma fonte valiosa de poder para os comunistas.

É com base nessa premissa que Leitch nos entrega uma grande obra. O co-diretor de John Wick reforça a destreza da sua direção para ação e também utiliza de um enredo intrigante e repleto de personagens multifacetados. O plano de fundo é sim batido, mas toda a construção apresentada encanta.

Com uma narrativa que faz o espectador pensar e não entrega os fatos com diálogos expositivos, Atômica brinca com idas e vindas entre uma sala de interrogatório e toda a ação pela qual a protagonista passou. Uma estratégia que funciona, mas pode deixar parte do público perdida ou até mesmo desorientada nas viradas que o filme apresenta. Mas nada impossível de entender, uma vez que cada personagem e cada central de inteligência tem seu arco de desenvolvimento bem apresentado e os personagens que o compõem vão ganhando novos subtextos na medida que a história vai se desenvolvendo. Além disso, o filme também é repleto de metáforas referentes a guerra fria que são apresentadas por pequenas sugestões durante as cenas e a escolha de cores opacas e um filtro azul sempre presente.

A atuação e a construção de personagens auxiliando em uma faceta pouco explorada dos espiões na sétima arte

Outro ponto que chama atenção é a originalidade da direção em criar espiões com uma pegada mais realista e até humana. Esse trabalho, no entanto, só funciona graças aos atores aqui presentes com destaque para Charlize e James McAvoy que entregam, respectivamente, uns dos melhores protagonistas e coadjuvantes que vimos até o momento no cinema em 2017.

Lorraine e Percival (James McAvoy), são personagens passionais e que deixam as suas emoções e incertezas serem exploradas (ainda que evitando expor para possíveis inimigos) e fogem do estereótipo do espião clean que vemos em 007, por exemplo. Isso não tira o charme ou a irreverência dessa profissão tão misteriosa, mas entrega ao espectador uma nova interpretação da mesma e aumenta a complexidade dos personagens, principalmente de Lorraine.

Outro ponto que contribui para essa nova faceta dos espiões são as cenas de luta onde vemos o preparo dos personagens, mas também vemos que, diferente de uma aventura do James Bond ou Kingsman, o combate real não é feito com armas supersecretas, mas sim com o que o agente dispõe no momento e que o cansaço e a dor das pancadas são reais.

David Leitch mostra que sua direção não se limita ao que soube executar (e muito bem) em John Wick

Essa mudança na ação típica dos filmes de espionagem também serve para vermos que Leitch sabe trabalhar não só com o que vimos em John Wick. Enquanto no longa com Keanu Reeves temos coreografias que se assemelham a uma dança e tomadas repletas de violência, mas ao mesmo tempo limpas, Atômica segue um caminho diferente. Desde a primeira cena com a protagonista vemos as marcas das suas lutas, o corpo calejado e a expressão facial de alguém que apanhou e muito. Isso só vai se intensificando na medida que vemos a ação com lutas “sujas” em que tudo pode ser uma arma e não ninguém hesita ou faz cerimônia para atacar.

Há, no entanto, semelhanças com o primeiro longa do diretor como os cenários iluminados por neon e o jogo de espelhos para aumentar o suspense nas cenas de perseguição, mas no caso de Atômica esses recursos também intensificam o clima noir do filme. São técnicas e visuais parecidos, mas empregados de maneiras diferentes. As próprias cenas de luta que também são longas, mas com cortes evidentes que tentam emular um plano sequência, se assemelham na medida que enaltecem a habilidade mortífera do protagonista.

A trilha sonora que, além de utilizar grandes clássicos dos anos 80 e 90, sabe encaixar cada música com cada cena. Esse encaixe não funciona apenas com a ambientação, mas também com a maneira como reagem às cenas. As músicas aqui presentes contextualizam a época em que o filme se passa e ajudam o espectador a imergir no que está acontecendo, seja pelo som em si ou pela quebra do mesmo.

Conclusão

Atômica é um filme que tem controle do seu material e sabe explora-lo ao máximo. Com uma trama densa e repleta de reviravoltas, cenas de ação bem apresentadas e atuações acima da média, o filme é um dos melhores do ano até então. Charlize Theron entrega ao público mais uma personagem feminina forte e o roteiro mostra que essa construção pode e deve sair dos clichês, seja do personagem feminino ou dos espiões.

Atômica Crítica Nota

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Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

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