Critica: American Gods O darwinismo dos deuses

American Gods (Deuses americanos) deve ser o romance mais reconhecido de Neil Gaiman e, depois de 16 anos de seu lançamento, conseguiu ter sua adaptação televisiva. Pelo canal Starz, com um total de oito episódios na sua primeira temporada com a participação do próprio Gaiman na sua produção.

Michael Green e Bryan Fuller completam o time de produção executiva da série. Fuller é conhecido pelo seu trabalho de showrunner de Pushing Daisies e pelo seu trabalho na série Hannibal. Quem assistiu esses trabalhos pode ter certeza que estética pela qual ele é conhecido está em American Gods e funciona perfeitamente. Tenho que dizer que inicialmente fiquei um pouco preocupado, pois Fuller tem um histórico de séries canceladas ao longo das temporadas, mas aparentemente dessa vez vai ser diferente, pois, logo após o capítulo de estreia intitulado The Bone Orchard, a série já teve a sua segunda temporada confirmada.

American Gods acompanha Shadow Moon (Ricky Whittle), um ex presidiário que cumpre seus três anos de reclusão até que é liberado para acompanhar o funeral de Laura Moon (Emily Browning) sua esposa que morreu num acidente de carro. Durante a viagem até o velório, o protagonista encontra-se com Mr Wedsney (Ian McShane) um trapaceiro que lhe oferece um emprego de segurança, e a partir desse encontro, Shadow começa a descobrir um mundo fantástico que ele não conhecia.

Shadow é o nosso guia nessa aventura fantástica onde Deuses são tão reais como o sol pela manhã. É interessante perceber que Shadow é basicamente o único humano em toda a série, e por causa disso acaba perdendo a sua sanidade ao longo dos episódios onde só ele questiona as coisas fantásticas que ocorrem ao redor dele e de seu companheiro Mr Wedsney.

 

Acho que a melhor coisa dessa série talvez seja a grande variedade de deidades que ela apresenta, ainda que esse ponto também seja um grande problema. Problema esse gerado pelo fato do público em geral não possui um vasto conhecimento sobre os deuses antigos e seus panteões fora do “normal” (gregos e egípcios) e eu me incluo nisso. Por isso acredito que me falta um pouco de estudo sobre o que eles realmente significam como Deidades. Provavelmente se eu tivesse um entendimento melhor sobre eles, eu teria entendido as suas reais funções, como por exemplo Peter Stormare, como Czernobog, e as irmãs Zorya que são pelo meu entendimento adivinhas e que elas vigiam o o cão do dia do juízo final, Simargl.

Por outro lado, os novos deuses são simples de entender, pois são mais íntimos da nossa realidade. (Bruce Langley) representa as rápidas mudanças na tecnologia e principalmente na internet, o que faz dele um personagem bem imprevisível e que basicamente representa as pessoas que usam a internet e só vivem do hater.

Media (Gillian Anderson) apresentando as várias facetas da manipulação em que os meios de comunicação possuem que, em certos momentos, vende para sociedade que você pode ser qualquer coisa e em outros que ela, a mídia, pode te destruir sem nenhum problema. Para mim, a Gillian está com uma atuação perfeita no papel, pois em todas as suas aparições ela representa algum personagem do entretenimento, indo desde Lucy, de I Love Lucy, até David Bowie.  E claro, não podemos esquecer o líder dos novos deuses Mister World (Crispin Glover), que não apareceu muito nos episódios, mas conseguiu representar muito bem a Globalização e as suas necessidades de dominação, mesmo que com um discurso de a união faz a força, fica obvio que essa união só é possível através dele e todos que não concordarem só sobra o esquecimento.

Gillian Anderson as Media
Gillian Anderson as Media

Outros pontos fortes em Deuses Americanos são as histórias paralelas que ocorrem no início dos episódios e servem para contextualizar algumas Deidades, como no episódio The secret of spoons, onde mostra Mr Nancy (Orlando Jones) auxiliando um grupo de escravos em um navio negreiro e que, em seu discurso inflamado sobre a escravidão, fica claro que a ajuda não é o que o espectador espera, mas se você entendeu que deuses precisam de preces e sacrifícios, tudo faz muito mais sentido.

Outro momento muito bom de introdução para os deuses ocorre no Head full of snow onde apresenta Anubis (Chris Obi), que está visitando uma senhora que acabou de morrer, e mostra para o espectador que existem outras visões da morte fora das ideias do cristianismo e que elas podem ser muito interessantes de serem vistas. Claro que não podemos esquecer da história de Salin (Omid Abtahi) e do Djinn (Mousa Kraish), que provavelmente vai ser só lembrada como a cena de sexo gay, mas para mim foi algo muito mais bonito e profundo do que apenas sexo, mas podemos deixar essa discussão para outro dia.

Salin e o Djinn American Gods
Salin e o Djinn

Outra trama que ocorre em paralelo com Shadow e Wednesday é a da Laura Moon e Mad Sweeney. Que é um dos maiores acertos da temporada, pois consegue dar espaço para a Laura de uma maneira bem interessante e criando uma improvável dupla de road trip.

Agora vamos falar da cereja do bolo, a atuação monstruosa de Ian McShane como Mr Wednesday. O ator conseguiu fazer vários papeis em um só, as vezes um velho vigarista, as vezes o ponto de sanidade para Shadow, sendo capaz de conferir lógica à sequência de acontecimentos surreais que pontuaram a temporada do início ao fim. O mais importante é perceber que a atuação é tão sublime que ele consegue ser mocinho e vilão e transformar as situações para o seu favor.

Nietzsche já dizia que deus está morto e nessa série ele tem uma certa razão. Pelo menos os deuses velhos que já não são lembrados e são basicamente mortos que não possuem mais propósito. Mas por outro lado também posso citar Charles Darwin e falar sobre a sobrevivência do mais forte e adaptado. Que facilmente representa os novos antigos deuses que aprenderam novas formas de existirem. Como a Bilques ou a Ostara, que aprenderam que a adaptação é a melhor forma de sobreviver.

Deuses Americanos encerra a sua primeira temporada da melhor forma possível. Com uma guerra e com o encontro de Laura com o Wednesday e claro com o seu marido Shadow.

 

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