Big Little Lies

Big Little Lies HBO Crítica

Em Big Little Lies, HBO entrega uma ótima série de suspense com discussões necessárias

Na primeira vez que bati o olho na sinopse e em cenas isoladas de Big Little Lies eu logo imaginei que seria uma espécie de Gossip Girl com mulheres mais velhas, não poderia estar mais enganado. Com um suspense intrigante e personagens bem trabalhados, a série dirigida por Jean-Marc Vallée baseada no livro de Liane Moriarty entrega ao espectador uma exposição da hipocrisia e pressão da alta sociedade.

A série acompanha a vida de Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman) e Jane (Shailene Woodley) e suas vidas na pequena cidade de Monterrey. Ao longo dos sete episódios o espectador vai conhecendo aos poucos as relações familiares de cada uma, seus dramas do passado e suas angustias. Com um enredo não linear, a série vai entregando os problemas de cada uma das protagonistas aos poucos e intrigando o público que, por saber desde o primeiro episódio que houve um assassinato em algum momento da trama, começa a entender os motivos do crime antes mesmo dele acontecer. A narrativa instiga o público e nos faz querer saber o desfecho de cada drama exposto, não só o assassinato em si.

A hipocrisia da alta sociedade e a violência (não tão) velada

A maneira como a trama expõe a fragilidade das personagens dentro da alta sociedade que frequentam e a constante preocupação com as aparências é o grande trunfo dessa primeira temporada. Na medida que novas informações e perspectivas vão aparecendo, vemos como todo aquele mundo, inicialmente perfeito, é podre e cheio de prejulgamentos. Como o titulo sugere, são através de “pequenas mentiras” que o caos começa a se instaurar e virar algo grande.

Dessa maneira, a série, ao desvelar aos poucos os pontos frágeis dos seus personagens, consegue tratar de temas pesados como violência doméstica, bullying, estupro e desvalorização da mulher na sociedade. Temas importantes de serem trabalhados e que acabam afetando cada uma das mulheres apresentadas na série. No entanto, na medida em que os depoimentos dos moradores do local sobre a noite do crime vão sendo apresentados, e vemos como há um prejulgamento devido a aparências e vaidades, o público entende (e se revolta ainda mais) porque as situações são mantidas em sigilo pelas protagonistas.

As atuações em alto nível e a montagem da série

Sigilo esse que acaba trazendo um grande desafio para os personagens: demonstrar seus problemas sem falar. A série utiliza muito da expressão corporal e facial dos atores que mesmo em momentos que precisam disfarçar agonias acabam transparecendo em olhares ou trejeitos. Nesse aspecto, Nicole Kidman e Shailene Woodley acabam tendo o maior destaque por interpretarem personagens com situações mais delicadas e problemáticas.

Woodley entrega em Jane uma jovem mãe solteira que está em constante julgamento pela comunidade no entorno e sofre com a angustia de um estupro no passado. Uma personagem muito reprimida que está constantemente extravasando seus problemas em momentos de solidão, mas que nunca deixa de apoiar seu filho. A aparência frágil da personagem cria um contraste perfeito com suas ideias e ambições, principalmente quando descobrimos sobre sua relação com armas e seu desejo de vingança pelo estuprador.

Celeste, que sofre de abuso psicológico e violência domestica, vive um constante dilema interno entre ficar com a família e se libertar de uma relação violenta. Com cenas fortes de agressão e diálogos agoniantes com a psiquiatra, a personagem de Kidman brilha na temporada e logo percebemos, pela sua trajetória, que Big Little Lies se trata de uma amadurecimento de todas as personagens e não de um clube liderado por Madeline e suas, aparentes, questões fúteis para com a comunidade em que vivem.

Para intensificar o drama de Celeste se faz necessária uma atuação a altura por parte do abusador. No papel de Perry, Alexander Skarsgard adiciona a trama um personagem indigesto que sintetiza muitos dos problemas tratados na série com um personagem extremamente problemático e violento. Skarsgard não possui muitas falas, mas a maneira como o ator muda a sua expressão e exprime a raiva do personagem convence o público e cria um retrato assustador da violência que a série procura apresentar.

Acompanhando toda a tensão criada no enredo e as atuações, temos uma montagem que trabalha não só em prol do suspense do assassinato, mas também para intensificar a sensação de angustia vivida pelos personagens. O contraste entre a calmaria do mar e as brigas, apresentadas sem som, os cortes rápidos alternando entre os relatos maquiados e o que aconteceu realmente e as músicas tranquilas emulando uma falsa sensação de estabilidade escancaram para o público toda a hipocrisia e falsidade na qual a comunidade está imersa.

A série, no entanto, acerta também no contraponto do seu drama pesado. Big Little Lies também sabe trazer um sopro de esperança dentro daquela tensão com as crianças da série. Apesar do conflito inicial ser gerado por uma agressão na escola, a trama também explora os filhos dos personagens e mostra que, apesar dos problemas familiares reverberarem nas suas vidas, ainda há inocência, companheirismo e bondade naquele lugar. Não que haja um final feliz, mas há, assim como na vida real, momentos bons a serem apreciados e lições que podemos receber mesmo com os mais jovens.

Os atores mirins também apresentam ótimas atuações e Iain Armitage no papel de Ziggy é o grande destaque. O personagem tem um laço muito forte com a mãe e a atuação de Armitage covence o público que Ziggy, mesmo sem saber muito bem o porquê, sofre com toda a situação construida e se mantém firme mesmo com todas as acusações sobre ele. Uma criança amorosa que busca ajudar todos no seu entorno e se mostra muito fiel com seus princípios e votos.

Conclusão

Big Little Lies é uma série com muitas camadas e discussões necessárias para o nossa sociedade. Apesar de parecer um drama barato, o roteiro mostra como as aparências enganam desde sua sinopse.

Com personagens carregados de dramas pessoais e uma história pesada, a série da HBO mostra como até mesmo as pessoas “perfeitas” podem quebrar. Aparada por uma direção que sabe dosar suas temáticas na medida certa e explora-los aos poucos para instigar seu o público, Big Little Lies é uma das melhores produções de 2017 não só na televisão, mas em todas as mídias.

Facebook Comments

About Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

View all posts by Lucas Mizumoto →

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *