A Forma da Água

A Forma da Água Crítica Drop Hour

A Forma da Água | Crítica

Guilhermo Del Toro debate temas importantes com uma história original, mas com ar de fábula clássica.

Um espectador desatento poderia resumir que viu um novo “A Bela e a Fera” depois de assistir “A Forma da Água”. Essa pessoa não poderia estar mais enganada. Embora tenhamos semelhanças óbvias entre as duas obras, a história apresentada por Guilhermo Del Toro vai muito além de um romance entre a princesa e a fera.

A fábula distorcida

A partir de uma história romântica ambientada na Guerra Fria, o diretor entrega ao público toda sua paixão pelo cinema e por monstros. Na estrutura de um conto de fadas, Elisa (Sally Hawkins), sua princesa, é uma faxineira muda que encontra amor e compreensão na criatura (Doug Jones) trazida por Strickland (Michael Shannon) da América do Sul. Monstro e Princesa criam um laço através da aceitação mútua em um ambiente onde ambos são menosprezados.

Apesar de uma formula já conhecida, roteiro e direção não se limitam aos clichês óbvios. Elisa não é uma personagem a ser salva ou totalmente pura, a criatura é aceita pelo o que é, e o vilão não limita sua crueldade ao casal. É partir do não convencional que o filme busca trazer temas mais profundos em seu subtexto. Preconceito e a prepotência humana se mostram presentes em meio a narrativa de romance proposta.

Personagens complexos colaborando para a trama

Acompanhando pessoas normais, o filme acerta no desenvolvimento dos seus personagens que ganham um grau de complexidade maior na medida que se apresentam. O casal de protagonistas, inicialmente ingênuos e limitados, se mostram muito mais fortes e sábios. Elisa reconhece seu encanto na criatura pela ingenuidade da mesma em relação a sua limitação da fala, mas na medida que vamos descobrindo mais sobre o ser, vemos que há um amor e um companheirismo para além da soma de suas diferenças.

O desenvolvimento dos protagonistas, no entanto, também amadurece graças aos coadjuvantes, na medida que suas interações trazem novas visões sobre a dupla. Zelda (Octavia Spencer) e Giles (Richard Jenkins), amigos de Elisa, são pessoas marginalizadas em seus ambientes de trabalho e em relações pessoais, mas que mostram muita compaixão, por debaixo de muita dureza pelas suas escolhas de vida e sonhos. Hoffstettler (Michael Stuhlbarg) é um cientista que vive o constante dilema entre estar prol da ciência ou da política, fazendo escolhas emotivas e irracionais, mas visando o bem do próximo. Apesar de figuras boas, os personagens estão constantemente apresentando suas falhas, seja através de egoísmo, receios e até mesmo a pré disposição assassina, no caso do cientista.

Já Strickland nos mostra a perspectiva de quem está cego pelo poder e por isso se vê no direito de inferiorizar o próximo. Um vilão que se vê como um espelho de Deus e que não consegue aceitar a presença de um ser mais complexo. Suas ações e conflitos com os demais personagens acabam sendo motivadas pelo seu senso de superioridade e sua busca incansável por uma perfeição distorcida através de suas ações.

A ambientação mal explorada

A complexidade trazida pelos personagens, no entanto, não é vista na ambientação. Apesar do roteiro conseguir entregar ao público uma interação orgânica entre os humanos e o monstro, o cenário em que se passa a história é pouco explorado. A presença da criatura no laboratório e os planos de utilização da mesma por parte do exercito americano não convence e a sensação que fica é de que a discussão científica seria muito mais proveitosa do que a corrida espacial.

Além disso, é perceptível a escolha da época apenas pelo apelo estético que o diretor utiliza para compor suas cenas. O cenário da guerra não trás nenhum peso para a narrativa e, embora não seja de fato o enfoque do roteiro, parece ser apenas uma desculpa para os personagens estarem no momento histórico que estão.

A direção precisa de Del Toro

Mas, mesmo com possíveis questionamentos do porquê da época, a narrativa fluída e as atuações logo deixam claro que isso pouco importa. E, para complementar a narrativa, Del Toro apresenta um ótimo trabalho de direção para tornar “A Forma da Água” o grande filme que é.

Del Toro utiliza de cada espaço em tela para complementar, através de imagem e som, a história que está sendo contada. Com cenários detalhados, escolhas de cores bem utilizadas e uma trilha sonora, de Alexandre Desplat, muito bem encaixada, o diretor nos apresenta uma obra sem medo de adicionar seus ideais. O filme mostra toda a preocupação técnica de sua direção, mas sem deixar de lado a cultura pop que Del Toro sempre abraçou.

A construção em tela aliada a narrativa faz com que o público se envolva com o longa. Se a narração inicial parecia algo infantil, sua retomada, na cena final, nos faz voltar a realidade como se estivéssemos saindo de uma aventura em nossa imaginação nos tempos de criança. É através da fluidez da história e de como a direção encaixa cada componente técnico de maneira orgânica, que “A Forma da Água” nos possibilita esse grau de imersão.

Conclusão

Com uma história envolvente e atuações de alto nível, “A Forma da Água” se torna um grande filme. Através de uma história nos moldes de um conto de fadas, vemos como o roteiro distorce a formula e nos apresenta algo muito mais complexo e envolvente. Del Toro se mostra muito mais maduro em seu trabalho e confiante ao trabalhar com temas que tanto gosta e em altíssimo nível.

 

 

 

 

 

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About Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

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