Opinião: Precisamos falar sobre o casting de Rei Leão

A vitória de Moolight reverberando nos blockbusters

Na última quarta-feira (01/11), a Disney anunciou o casting de dublagem do live action de Rei Leão. Embora alguns atores já tivessem sido confirmados anteriormente, algumas especulações, como a participação de Beyonce como a leoa Nala, foram confirmadas.

Apesar dos vários fãs comemorando as escolhas, algumas opiniões negativas também apareceram. Dentre os questionamentos, o principal foi: “Por que mudar o casting original? Se vai ser só uma dublagem, qual a diferença em deixar o que já tínhamos na animação de 94?” e a resposta disso é bem simples: A industria do cinema, em especial Hollywood, está amadurecendo e reconhecendo a importância de incluir minorias.

Porquê não utilizar o casting do Rei Leão de 94

Se pegarmos o casting da animação, podemos ver que os papeis de maior destaque são dublados por atores brancos enquanto na produção live action temos uma escolha de elenco quase toda composta por negros. Oras, estamos falando de um filme que se passa na África e que, embora sejam animais, bebe da cultura local na composição do enredo, trilha sonora e, obviamente, ambientação.

Não é surpresa alguma que a influência mais gritante em Rei Leão seja Hamlet, mas o que faz a produção alcançar um novo patamar é a maneira como ela consegue se inserir no contexto africano.  Por isso a necessidade de termos personagens representados por descendentes deste continente se faz necessária. A atuação, assim como qualquer profissão ou ação humana, leva em conta nossas experiências pessoais e nossa bagagem cultural. Por isso, escalando pessoas que representam e convivem com a essência do seu roteiro é fundamental. Mas se isso é algo tão obvio, por que não escalaram assim desde sempre? A resposta também é bem simples: Porque a industria tem receio do seu lucro ser baixo.

Um receio que, embora seja preconceituoso em sua essência, é embasado, uma vez que as grandes produções costumam ser sustentadas por atores caucasianos e filmes de destaque com minorias (raciais, de gêneros ou orientações sexuais) normalmente acabam ganhando status de filmes cult. Mas, felizmente, essa visão vem mudando na última década e os reflexos dessa mudança podem ser vistos nas grandes premiações, como o Oscar, e na escolha de atrizes e atores pertecentes dessas minorias para papeis de destaque como é o caso de Viola Davis na série How to Get Away With Murder e até mesmo Gal Gadot em Mulher Maravilha.

Apesar de ainda ser uma mudança tímida, ela já chegou nos grandes estúdios. Por isso, a escalação de Rei Leão certamente não é algo que veio ao acaso. Uma aposta bem vinda e extremamente necessária, justificando não só a necessidade dos novos atores, mas também mostrando que as vozes das minorias estão sendo ouvidas. Valendo ainda ressaltar que, numa escala menor, o live action de A Bela e a Fera já deu esse ponta pé inicial com um personagem assumidamente gay.

Para além de Rei Leão, como essa aposta influencia as próximas produções?

Outro ponto que devemos levar em consideração é o futuro da Disney. Rei Leão não é o único projeto live action programado para os próximos anos, outras animações de peso do estúdio terão uma versão atualizada em breve.

Dentre esses filmes, temos Aladdin e Mulan, dois filmes que, assim como Rei Leão, estão inseridos em contextos fora do “padrão” hollywoodiano e que certamente se aproveitaram da bilheteria de Rei Leão para a sua escolha de casting. Caso Rei Leão faça sucesso, não seria surpresa alguma vermos Aladdin com um elenco composto por descendentes de árabes e Mulan com chineses e descendentes.

E caso Rei Leão dê certo, a influência e o destaque das minorias pode muito bem reverberar em outros estúdios de peso e até servir como um marketing efetivo e necessário para as minorias. Afinal, um filme voltado para o público infantil (que é o caso da maior parte das produções Disney) acaba influenciando as crianças e a possibilidade de ver um semelhante seu nas telas é um incentivo a mais para gostar daqueles personagens.

Conclusão

Apesar das opiniões divididas, uma coisa é fato, a escolha de elenco para Rei Leão é um grande avanço para o cinema como um todo. Se o filme vai ser bom ou não só saberemos em 2019, mas podemos ter certeza de que o empenho da produção existe.

Quando formos pensar em criticar a escolha de algum elenco ou argumentar que algo deveria ser “como sempre foi”, devemos primeiro pensar se o “como sempre foi” está coerente com a ambientação, com o roteiro e até mesmo com os questionamentos da sua época.

 

 

Facebook Comments

Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *