Pantera Negra é o filme mais inteligente da Marvel Studios

A Marvel conseguiu, com Pantera Negra, um feito inédito: criar um filme de super-herói maduro, inteligente e de muitas camadas

Eu não sei se Pantera Negra é o melhor do universo cinematográfico da Marvel Studios. A minha incapacidade de responder essa questão se dá por dois motivos. O primeiro é simples: pessoas diferentes tem gostos diferentes, então podemos não chegar a um consenso de qual filme é “melhor”. Em segundo lugar, esse último longa tem uma proposta tão diferente dos demais filmes da companhia que chega a ser estranho compará-los. Em meio a uma enxurrada de produções muito preocupadas em serem divertidas, carismáticas e fiéis à experiência dos quadrinhos, Pantera Negra se destaca por ser inteligente, maduro, uma história mais preocupada em expor e problematizar cenários sociais.

Antes de começar propriamente a minha argumentação, cabe destacar que esse texto está RECHEADO DE SPOILERS! Então, se você ainda não assistiu o filme, pule para o fim da página. Lá tem o link para a nossa crítica em vídeo, sem spoilers, do longa.

Mais do que um herói: um rei

Quase todos os filmes da Marvel Studios até agora trabalham com uma fórmula semelhante. O herói (ou grupo de heróis) precisa salvar o mundo de um vilão. Esse cara mau quer destruir/conquistar/zoar o planeta e o mocinho precisa manter o status quo vigente. No primeiro Capitão América, Steve Rogers e seu batalhão lutam para evitar a vitória alemã – e do Caveira Vermelha. Em Thor: Mundo Sombrio o deus do trovão tem que impedir Malekith de dominar o mundo. Em Dr. Estranho, Stephen Strange tem que deter Dormammu que ele destrua nossa realidade. E por aí vai: no fim os heróis evitam que a sociedade mude drasticamente, deixando-a mais ou menos intacta.

Em Pantera Negra, essa fórmula é radicalmente transformada. T’Challa não é simplesmente um herói fantasiado, mas sim um rei. Um governante que acaba de assumir o trono e que rapidamente se vê em uma dúvida cruel sobre qual política externa deve adotar. Ele deve abrir Wakanda para o mundo, visando ajudar os necessitados, mas arriscando a paz e integridade de sua nação no processo? Ou deve seguir a linha política de seus antecessores de isolar seu povo em prol da segurança? Ao final ele acaba optando por mudar radicalmente os rumos de seu país, inserindo-o no cenário político e econômico mundial.

É interessante observar que Capitão América: Guerra Civil poderia ter feito o mesmo. A lei de registro de super-humanos – ou tratado de Sokovia, o que preferirem – deveria chacoalhar o universo cinematográfico. Questões muito importantes como vigilantismo e legislação de armas poderiam ter sido discutidas no longa. Mas infelizmente o filme preferiu construir uma narrativa baseada em “ele é meu amigo, não prenda ele” vs. “eu era mais seu amigo que ele”. E no final, nada mudou – o exílio do Capitão América facilitado por Tony Stark é a prova da falta de coragem do filme de realmente efetuar transformações.

Nova produção da Marvel: “Indiretas do Pantera”. Essa primeira foi para o Trump.

Um vilão com consciência social

Killmonger (Michael B Jordan) é o vilão mais complexo do universo cinematográfico marvel. Ainda que a concorrência não seja forte, esse é um grande mérito da equipe do filme. O que tornou Killmonger tão especial e único foi a construção de uma consciência social para a personagem. Crescido na periferia de um cidade nos Estados Unidos, órfão ainda com pouca idade, Erik viu o pior que a sociedade tinha a oferecer aos negros. Ele transformou sua dor em ódio e seu ódio em uma missão: tomar o trono de Wakanda e distribuir os recursos do país para seus irmãos fazerem a revolução. Você pode discordar da decisão tomada pelo antagonista, mas é impossível negar a sua lógica. Erik cresceu na terra do política do “Big Stick”: quem tem as maiores armas dita as regras.

Qualquer semelhança com Magneto não é mera coincidência. Ambos escolhem o caminho da luta armada para defender o seu povo. E o mais legal da construção do vilão Killmonger são os questionamentos que o próprio coloca para T’Challa. Killmonger acusa o trono de Wakanda de fechar os olhos para os seus súditos. O vilão joga na cara de T’Challa a ineficácia de sua recusa ao mundo externo, que apenas entregou de bandeja milhões de negros à escravidão, ao encarceramento em massa, à violência nas periferias, aos atos de preconceito, etc.  Pela primeira vez pudemos encontrar um vilão com um propósito muito mais lógico – e social – do que uma vingança simples ou um infantil plano de destruição mundial.

Killmonger, o homem que quebrou a maldição dos vilões da Marvel Studios

Menos fantasia e mais realidade

Pantera Negra é um filme de super-herói baseado em quadrinhos e por isso ele guarda muitos elementos fantasiosos. O maior deles é a própria Wakanda, uma nação escondida no coração da África que, de alguma forma, é extremamente rica e próspera sem realizar comércio com nenhum país, retirando tudo que precisa de um metal alienígena. A própria tecnologia do país é totalmente mirabolante. Mas por dentro dessa roupagem fantasiosa existe um coração real. O filme apresenta, constantemente, questionamentos sobre racismo e xenofobia, discussões atuais e urgentes. Políticas públicas para refugiados, ameças à soberania nacional por disputa de recursos nacionais, esses e outros assuntos não-ficcionais são colocados no filme.

Quando assisti Capitão América: Soldado Invernal, fiquei encantado pela proposta do filme. O debate segurança x liberdade é um dos meus preferidos e o longa apresenta bons argumentos para essa discussão. Mas no último ato, infelizmente, a balança tende para a fantasia. Steve Rogers consegue, com um pen-drive, acabar totalmente com a ameaça de “vigiar e punir” proposta pelos vilões. Em Pantera Negra, o desfecho não é tão simples. Na primeira cena pós-créditos, quando T’Challa informa ao mundo da investida diplomática de sua nação, ele é visto com desprezo por outros representantes políticos. E mesmo que deixem subentendido que ele vai calar a boca daqueles homens ao mostrar sua tecnologia, a luta continuará. A xenofobia e o racismo ainda existirão. As tentativas de desestabilizar financeiramente e politicamente Wakanda se intensificarão. Afinal, o mundo real é assim: não existe “e viveram felizes para sempre”.

A “fantasia de gato” é falsa, mas quase todo o resto é muito, mas muito real

Conclusão

Talvez Pantera Negra não seja o melhor filme de super-herói já criado. Talvez ele nem mesmo seja melhor que “Capitão América: Soldado Invernal” ou Vingadores. Mas até hoje eu não encontrei um filme desse gênero que fosse tão maduro, preferisse ter os pés tão no chão e propusesse debates tão ricos e atuais quanto esse. Não foram muitos os longas de super-heróis que eu quis ver novamente. Alguns, como “Vingadores”, eu vi mais de 10 vezes para me divertir. Mas raros são aqueles que sinto necessidade de rever para poder pensar sobre a história. Pantera Negra está nesse último grupo. Sinto que apenas descasquei a primeira camada. Tenho que ir mais fundo nesse filme – e sugiro que você faça o mesmo exercício quando puder assisti-lo.

Confira a nossa crítica SEM SPOILERS do filme aqui!

 

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About Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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