Opinião: Afinal, para que serve a crítica?

Quantas vezes você já leu a seguinte frase “O filme X foi aclamado pela crítica”? Ou então “O filme Y estourou na bilheteria apesar das críticas negativas”? Imagino que muitas, não é mesmo? Essa relação da crítica com os produtos midiáticos, aqui focando principalmente em cinema e séries de televisão, acaba gerando muitas discussões e argumentos equivocados por parte do público. No texto de hoje falarei um pouco da minha percepção da crítica e como essa ferramenta pode de fato acrescentar na experiência do grande público.

A opinião da crítica deve ser um guia ou acréscimo?

A crítica, seja ela qual for, deve analisar o produto em questão com um viés técnico e apontar os pontos positivos e negativos empregados naquela obra. Nesse sentido, cabe ao crítico analisar o uso da câmera, o desenvolvimento do roteiro, as atuações, etc. São perspectivas técnicas postas em evidência e que, para o grande público, as vezes não são relevantes. Obviamente uma análise não deve ser feita só como uma especie de checklist de elementos, mas cabe ao especialista nos indicar os “porquês” de algo ser bom ou não.

Uma boa crítica vai apontar ao leitor como o filme acertou em utilizar um match cut para criar um impacto em cena X, ou como o paralelo entre o personagem Y e a situação história X acabam sendo bem empregadas. Vai saber justificar o uso do ângulo holandês no filme Z e indicar como o uso bem empregado da computação gráfica foi essencial para a ambientação do filme K. Saber destrinchar os mínimos detalhes que nos fazem sair do cinema estonteados com o que vimos, mesmo sem saber muito bem o motivo, é o papel desse tipo de texto.

E não se engane em pensar que a crítica é algo robótico e totalmente imparcial. Como qualquer tipo de texto feito por nós, humanos, a crítica é sim carregada de opinião e subjetividade. Por mais que o escritor esteja coberto de embasamento teórico e analisando técnicas já estabelecidas, não é algo raro termos argumentos negativos em relação ao uso de efeitos gráficos por críticos que não gostam do recurso, por exemplo.

Independente da parte técnica, cabe a nós, os espectadores “comuns” sabermos utilizar o nosso próprio senso crítico para identificar o que nos agrada ou não. Afinal de contas, o cinema é uma forma de entretenimento e se você está indo ver um filme com essa finalidade, um filme bom deve ser, antes de mais nada, algo divertido de se ver.

Não use a crítica como argumento de meu gosto > seu gosto

Agora que já defini a minha ideia de crítica como um complemento da sua experiência com o cinema, outro ponto deve ser levado em consideração: a crítica não deve ser sua muleta em discussões. Um filme não é uma nota dada por um crítico, e mesmo quando essa nota é boa, o número final é o que menos importa. Os argumentos e a linha de raciocínio do crítico são as verdadeiras “notas”.

Em discussões sobre filmes mais pop (e principalmente filmes de super-herói), é muito comum vermos fãs “atacando” o filme preferido de outros grupos ou justificando o porquê de não querer ver um filme X ou Y por conta da sua nota em sites de grande relevância. Isso não é apenas uma tremenda bobagem, como também acaba sendo um argumento usado de maneira errada, em muitos casos.

Agregadores de crítica como Rotten Tomatoes e Metacritic não dão as notas “reais”. Eles criam uma relação binária entre “positivo e negativo” de acordo com a nota da pessoa. No primeiro momento isso parece a mesma coisa, mas pense na diferença enorme entre um filme nota 1 e um filme nota 5, ou até mesmo entre 6 e 10. Bastante coisa, não é mesmo?

Por isso, quando for pensar em falar “Esse filme é um lixo, a nota de dele no rotten tá 50%” procure ver se as notas negativas são realmente as piores possíveis e se os argumentos usados pelo crítico fazem sentido com sua expectativa para o filme.

A pessoa por trás das palavras importa

Outro conselho para se guiar em uma crítica é: procure críticos que você confie e não se guie por sites. A linha editoral de um site, revista, etc pode influenciar nos textos dos seus colunistas e é fundamental que você procure saber qual é a proposta ali.

Isso pode parecer estranho vindo de alguém que faz críticas para um site, mas é verdade. Mais importante que veículo onde a pessoa escreve, é o conhecimento e a escrita da mesma. Isso complementa o que disse anteriormente sobre a verdadeira nota da crítica estar no texto e não no número final.

Você gosta de um texto mais técnico? Talvez sites de entretenimento não seja sua crítica. Você prefere algo mais objetivo e talvez com uma linguagem mais fácil? Talvez um canal voltado para filmes geeks e com impressões mais subjetivas seja a sua pegada. Não existe uma formula para isso e também não fique preso em um estilo apenas, veja diferentes abordagens e, como disse no tópico anterior, não use a opinião alheia de muleta para suas discussões.

Por mais que existam várias opções, busque aquelas que estejam bem embasadas dentro da sua proposta. Uma boa crítica não pode ser rasa ou se limitar aos argumentos de “achei chato ou achei legal”, uma reflexão deve ser feita.

Conclusão

A ideia aqui é apresentar um pouco da minha opinião sobre a crítica, pensando principalmente da popularidade desse gênero textual no meio geek e como isso pode ser nocivo nas discussões. Por isso, gostaria de reforçar que, quando estiver lendo algum texto desse gênero, procure não ser totalmente passivo. Discuta (ainda que mentalmente) com o autor, aprofunde a sua opinião do filme e não molde a partir da fala do outro.

Um filme ser divertido ou não cabe a nós, espectadores, decidir. Afinal de contas, quem não tem um guilty pleasure? Não podemos ser hipócritas e dizer que só vemos filmes bons, assim como não devemos engolir a opinião dos “especialistas” e desmerecer uma obra sem nem ao menos ter contato com a mesma. Como disse, a crítica é um acréscimo e não a verdade absoluta. Por isso, da próxima vez que for decidir ver um filme a partir de uma crítica, tenta fazer o exercício de assisti-lo antes e depois ver se concorda com o texto.

 

 

 

 

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Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

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