Lyanna Mormont: personagem “forçada” ou necessária?

Cada novo episódio de Game of Thrones é ansiosamente esperado pelos fãs por sua capacidade de oferecer novas intrigas, traições, batalhas e, muitas vezes, mortes surpreendentes. Entretanto, tenho reparado que entre os espectadores da série, especialmente em grupos e fóruns espalhados pela internet, cada novo episódio ou temporada do seriado também proporciona novas discussões. Algumas delas, a meu ver, são esperadas: teorias sobre o futuro da série, rivalidades entre personagens, etc. Outras, no entanto, me surpreendem. Essa semana um novo tópico de discussões firmou-se de vez nos debates entre fãs: afinal, Lyanna Mormont é uma personagem interessante e necessária à série ou sua personalidade e diálogos a tornam uma personagem “forçada”?

Antes de iniciar a discussão sobre a personagem, considero importante avisar aos que não leram os livros – ou lembrar aqueles que já leram – que a personagem não apareceu diretamente em nenhum capítulo até agora. A única grande menção à senhora da Ilha dos Ursos acontece no quinto título, “A Dança dos Dragões”: Lyanna Mormont responde gentilmente a uma carta de Stannis Baratheon. O rei Baratheon pedia apoio da família Mormont a sua casa e Lyanna lembra a ele que o único rei que sua família reconhece é o Rei do Norte cujo sobrenome é Stark. Essa resposta, inclusive, gerou muitas teorias sobre um possível significado maior – sua inserção em uma grande conspiração do Norte.

Cena na qual Lyanna Mormont faz sua estreia em Game of Thrones – existe uma versão dublada em PT-BR no youtube também, mas procuro sempre optar pelo material original. 

A série produzida pela HBO, por outro lado, decidiu dar mais destaque à Lyanna Mormont, fazendo-a um personagem coadjuvante da trama a partir da sexta temporada. Quando Jon Snow, Sansa Stark e seus aliados planejam marchar contra Ramsay Bolton, eles pedem ajuda aos lordes e senhoras do Norte, dentre eles, Lyanna. A primeira cena na qual a jovem aparece foi uma das mais comentadas à época. O que vimos foi uma senhora da ilha dos ursos tão feroz quanto a carta endereçada a Stannis sugeria, ainda que sua casa tenha pouquíssimas riquezas e recursos.

A partir daí, Lyanna Mormont teve apenas mais dois momentos de grande destaque: ao fim da sexta temporada, a senhora da ilha dos ursos declarou sua lealdade a Jon Snow e ajudou a proclamá-lo Rei do Norte. O segundo, o mais recente e mais polêmico foi na estreia da sétima temporada, quando ela concordou com Jon Snow que mulheres e crianças deveriam ser treinadas para a grande batalha contra os White Walkers, pois, segundo Lyanna, nem  ela nem as mulheres da ilha dos ursos ficariam paradas enquanto os homens lutavam na guerra. E a partir desse episódio, mais precisamente após esse comentário, aparentemente a discórdia se deu dentro dos grupos e fóruns de discussão sobre Game of Thrones.

Uma senhora afirma que participará de maneira decisiva durante uma guerra e de repente todo mundo perde a cabeça. 

Muitos espectadores começaram a defender a ideia de que a personagem de Lyanna seria “forçada”. Em outras palavras, a personagem estaria sendo utilizada de maneira inadequada dentro do roteiro, com único intuito de polemizar, provocar reações nos fãs, carregando em si e em suas palavras uma série de significados associados a uma agenda político-social específica e com isso buscando tornar-se um tópico de discussão, o que poderia significar um ganho em audiência para a série. Outros fãs assumiram um papel diferente nessa discussão, defendendo a personagem e considerando que as cenas e diálogos envolvendo Lyanna Mormont seriam interessantes não apenas para a série, mas para diversos debates como representatividade feminina em Game of Thrones, igualdade de gênero, dentre outros. Afinal, quem está certo nessa historia? Qual lado está mais perto da verdade?

Para não manter o suspense, já adianto que concordo em maior parte com essa perspectiva de que Lyanna é uma personagem necessária para a série e com as pessoas que a defendem. Entretanto, concordo em alguns poucos pontos com quem a vê como uma ameaça a um roteiro mais bem escrito e menos “forçado”. Vamos aos meus argumentos então.

Essa é a cara de Lyanna Mormont quando vocês falam que ela é “forçada”.

Em primeiro lugar, não acredito que a ferocidade ou a postura determinada de Lyanna seja “forçada” dentro do roteiro porque faz todo sentido que a jovem senhora tenha esse temperamento. Nos livros a Ilha dos Ursos é descrita como um lugar inóspito, perdida em meio ao frio, constantemente atacada por Greyjoys, Selvagens e outros perigos. A população local dedica-se quase que inteiramente à pesca, e como os ataques inimigos eram constantes, as mulheres tiveram de aprender a lutar para poder defender as cidades enquanto os homens praticavam a caça e pesca. Em resumo: a ilha dos ursos é um lugar péssimo no qual todos tem que ralar muito para sobreviver. Faz sentido que Lyanna Mormont, ainda que seja uma jovem menina, enquanto senhora da ilha deva representar e proteger seu povo da melhor maneira possível, certo? Isso explica sua postura “agressiva” e determinada.

Em segundo lugar, ainda que Lyanna seja jovem, ela perdeu boa parte de sua família devido aos últimos confrontos em Westeros. Isso certamente a fez amadurecer mais rápido do que poderia se esperar, especialmente pela posição que foi forçada a ocupar. Portanto, sua propensão a discutir abertamente assuntos complicados, realizar tréplicas desconcertantes e se posicionar de maneira decisiva podem ser consequências desse amadurecimento forçado. Novamente então não vejo nada de “forçado” em suas atitudes ou diálogos.

Em terceiro lugar, e acho que esse é o aspecto que muitos espectadores estão esquecendo de levar em conta na análise sobre Lyanna Mormont: ela é uma coadjuvante de um dos núcleos da série. Isso significa que seu tempo de tela será mínimo; sua participação na trama será  limitada a algumas cenas. Os diálogos nos quais a jovem senhora dos ursos participará serão poucos. Esses elementos oferecem uma dificuldade aos roteiristas: complexificar a personagem. Sansa Stark, uma das protagonistas, aparece recorrentemente nos episódios, o que possibilita construir nuances na personagem: os espectadores conhecem suas emoções, as nuances do seu caráter, seus traumas, desejos, qualidades e defeitos… Lyanna, por outro lado, é uma personagem praticamente unidimensional: ela é apenas feroz e determinada porque simplesmente não há muito mais tempo para construir outras características da personagem.

Feroz até em desenho.

Após essa minha argumentação na qual procurei deixar claro que discordo frontalmente de quem considera Lyanna Mormont uma personagem chata ou “forçada”, devo fazer uma ressalva. Dificilmente a HBO (ou qualquer emissora ou produtora, na verdade) insere qualquer elemento ou personagem que seja em um programa sem buscar, com isso, aumentar sua audiência. Logo, a participação de Lyanna, sua postura, seus diálogos, podem sim ser utilizados para carregar uma série de sentidos e argumentos progressistas, feministas, seja lá como você quer chamar, se a HBO considerar que há um público que aprovará isso e/ou que esse recurso resultará em um impacto positivo dentro dos fóruns e grupos sobre a série. O que defendo aqui é que mesmo que os produtores estejam se aproveitando da construção da personagem para “polemizar” ou “forçar” uma determinada agenda em busca de audiência, existe espaço dentro do roteiro e do próprio canon das Crônicas de Gelo e Fogo para que a personagem seja construída com esses contornos.

Por fim, vamos então tentar responder a pergunta lá de cima: Lyanna Mormont é uma personagem “forçada” ou necessária para Game of Thrones? “Forçada” eu tenho convicção que ela não é. Quanto a sua importância para Game of Thrones e para as mulheres como um ícone de representatividade feminina, não posso opinar com propriedade. O que posso afirmar é que ela é uma das personagens femininas fortes da série – ao lado de Meera Reed, Daenerys e Cersei, a meu ver, por exemplo – ainda que Game of Thrones e muitas outras produções do universo geek ainda sejam predominantes machistas em diversos aspectos. Portanto, quanto mais Lyannas tivermos em GoT, melhor! Mas essa questão do machismo nas produções geek é um tópico para outro texto e outra hora. Abraços!

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About Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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