Conhecer o Universo Expandido da obra te torna um maior fã?

Os universos expandidos das obras são uma ótima ideia que, mais uma vez graças às pessoas, tornam-se elementos de discriminação

É possível perceber que todos os problemas do mundo, a meu ver, se originam do fato de que o ser humano é ruim. Somos invejosos, ciumentos, possessivos, violentos (alguns mais do que outros, obviamente). Quando colocados em uma sociedade doente como a nossa – competitiva, consumista, perversa – a tendência é que esses defeitos aflorem. Os grupos geek não seriam uma exceção: apesar de ser um nicho muito legal de conviver, infelizmente as pessoas conseguem, por vezes, estragar a convivência. As ferramentas para isso são as mais variadas, mas hoje nesse texto eu vou focar em um tópico que tem sido alvo de discussões em vários grupos: o universo expandido das obras. Afinal: o fato de conhecer e consumir o Universo Expandido da obra te torna um maior fã dela?

Já adianto a minha resposta para essa pergunta: NÃO. Conhecer o universo expandido de uma franquia te torna um fã mais informado. Qual a diferença? Vamos entender.

A discriminação da vez

Antes de iniciar a minha argumentação, só queria mostrar que essa questão do universo expandido é só mais um veículo de discriminação, pura e simples. Uma forma que algumas pessoas usam de se mostrar melhores que outras. Essa lógica está presente em todos os meios, as vezes sendo aplicada das formas mais estúpidas. Alguns torcedores de futebol se julgam mais apaixonados que outros por comprarem a camisa oficial do seu clube todos os anos. Ou por irem ao estádio em todo jogo, ou mesmo por serem Sócios e os outros não, etc. Olhemos para as crianças, por exemplo. Eu já fui considerado menos “legal” porque não tinha celular. Discriminação pura e simples: se você é ou tem algo específico, você é um “de nós”. Se não tiver… é um deles, aquilo que não queremos e devemos ser.

A questão do Universo Expandido é a arma usada por muitos geeks para tentaram se colocar acima dos outros. “Eu li tantas HQslivros dessa franquia e você assistiu só os filmes, então sou mais fã que você” diria o geek chatão. Mas podia ser uma coleção a ferramenta da discórdia: “Eu tenho TODOS os jogos de tal franquia, olha como sou apaixonado por esse jogo!” diria um outro geek inconveniente. As formas de manifestar a intolerância mudam, mas o ódio é o mesmo.

“Olha, eu tenho todos esses jogos, veja como sou mais fã do que você…” PARE, APENAS PARE

Informação x Paixão

Agora vamos entender porque falei em um fã mais “informado” no que tange aos universos expandidos. Quando uma franquia ou obra vai além de sua mídia original, ela começa a expandir seu universo. Esses novos produtos, sendo canônicos, agregam informação à franquia original. Darei o exemplo de Star Wars porque a franquia possui um dos maiores universos expandidos do mundo geek e tem sido tópico de muitas discussões. Além dos filmes, Star Wars conta com HQs, livros, games, desenhos, dentre outros produtos em diferentes mídias. Na maioria das vezes, esses títulos expandem a história dos filmes, contando novas histórias, com personagens muitas vezes inéditos, ajudando a preencher lacunas na mídia principal.

Quando um fã de Star Wars decide ir além dos filmes e começa a consumir livros e HQs do mesmo universo, ele está agregando informação. Se ele leu “O Herdeiro do Jedi”, por exemplo, ele viu como Luke Skywalker começou a mexer objetos usando a Força. Ele acompanhou o personagem abrindo e examinando, pela primeira vez, um sabre de luz. Alguém que só assistiu os filmes não viu tais momentos, mas nem por isso é menos apaixonado!

Não há como medir paixão. Me manterei no exemplo de Star Wars para mostrar como é difícil comparar paixão. Eu e meu pai assistimos todos os filmes. Mas além de assistir, eu também já li HQs, livros e sei a história de alguns jogos (apesar de não ter jogado-os). Meu pai “só” assistiu. Mas o meu pai assistiu todos os originais no cinema – e olha que o primeiro ainda era visto com desconfiança na época. Meu pai deve ter visto cada um deles mais de 15 vezes. Já comprou incontáveis bugigangas de Darth Vader. Coleciona os capacetes daquela coleção de banca. Já tentou puxar a garrafa de Coca-Cola com a Força mais vezes do que eu sou capaz de contar. Sejam sinceros: eu posso me declarar mais apaixonado por Star Wars do que ele?

Eu adorei ter lido esse livro, mas não ouso me chamar de mais apaixonado que qualquer outro fã por causa disso

Tente não ser um babaca

Esse é o meu conselho para quem consome o universo expandido de uma obra. Costumo observar discussões em grupos das mais variadas franquias e me irrito com o comportamento de algumas pessoas. Uma vez, no grupo de The Walking Dead, um leitor das HQs perguntou o que Michonne tinha feito durante um salto temporal ocorrido na história. Um outro usuário o respondeu, arrogantemente: “se tivesse jogado o jogo da Telltale, você saberia”. Ninguém tem a obrigação de jogar. Seja por falta de interesse, conhecimento sobre o game ou mesmo dinheiro, o consumo não é uma necessidade. Seria mais simpático rer respondido: “existe um jogo que conta essa história. Se você puder, jogue, porque é muito legal. Se você não puder ou quiser, eu posso resumir para você o que acontece”. Assim você apresenta um novo produto da franquia sem diminuir a pessoa que não o consumiu.

Seja que nem esses Homens-Aranha: convivam em harmonia com o seu próximo.
Conclusão

O Universo Expandido das obras tinha tudo para ser uma excelente ideia. Novas histórias, personagens, novas abordagens de diferentes autores para uma proposta já conhecida e abraçada pelos fãs. Mas infelizmente, as pessoas, sempre elas, conseguem subverter uma coisa legal, transformando-a em ferramenta de discriminação. Recomendo demais que, se você gosta muito de um livro, HQ, jogo, etc. investigue se já existem outros produtos que contem novas histórias desse mesmo universo. E recomendo ainda mais que você tenha paciência e consideração com quem não consome esses outros produtos, e que principalmente entenda que paixão não se mede e nem se compara, mas sim se admira e curte. Abraços!

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About Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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