Review: Tom Sawyer

“Um mangá inteligente como há muito não lia”

O quanto você mudou desde sua infância? Quais fantasmas do passado ainda lhe perseguem? O que torna um lugar o seu verdadeiro lar? Esses e outros questionamentos filosóficos/existenciais são brilhantemente levantados na obra “Tom Sawyer”, de Shin Takahashi, e cabe ao leitor assimilá-los e tentar responder a si mesmo.

Para começo de conversa, fica o parabéns para a JBC. Tal iniciativa de trazer títulos one-shot para o Brasil tem se mostrado muito acertada. De “The Innocent”, passando por “Tsumitsuki” (cuja review você confere aqui http://drophour.com.br/2014/07/31/review-tsumitsuki/) e chegando finalmente a “Tom Sawyer”, a editora tem feito um grande trabalho de tradução, edição e publicação. Tom Sawyer possui quase 400 páginas, oito páginas coloridas e uma capa tão bem planejada que praticamente vende a obra sozinha. E todo esse pacote sai por R$ 23,90, o que considero um preço bem justo.

Tom_Sawyer

Ok, comprei pela capa, admito.

O mangá é baseado no livro infantil “As Aventuras de Tom Sawyer”, do escritor estadunidense Mark Twain, publicaod em 1876. A obra original se passa nos Estados Unidos, em uma pequena cidade às margens do rio Mississipi, enquanto que a adaptação para mangá tem como cenário o interior do Japão. É nessa pequena cidade que Haru, a protagonista, uma jovem por volta dos seus 25 anos, viverá um verão inesquecível. Haru nascera ali, mas assim que pôde mudou-se para Tóquio, para fazer faculdade de artes e trabalhar. Mas quando sua mãe falece, ela é obrigada a retornar para participar de seu velório.

 tom sawyer GRçFICA

Obra original, de Mark Twain

O que Haru encontra em sua cidade natal não a agrada. Os vizinhos ainda guardam ressentimentos por ela e por sua mãe, os preconceitos típicos de uma cidade tradicional japonesa: nunca aceitaram que a mãe de Haru fosse mãe solteira, que ela fosse muito independente, que a menina fosse dada a escândalos, etc. Haru pensa em sair da cidade o quanto antes, e só não o faz por razões que ela mesma não consegue definir, mas que sem dúvida tem a ver com o garoto simpático e travesso que ela conhece no funeral de sua gata: Taro, o outro protagonista da obra.

Taro é um menino entre 13 e 14 anos. Passando por aquela fase na qual ele ainda faz brincadeiras de criança, mas os primeiros namoros começam a acontecer, Taro é curioso, amigável e tem sempre muita energia para gastar. Ele e Haru fazem uma dupla curiosa: apesar da jovem ter pelo menos 10 anos a mais, é sempre convidada para participar das brincadeiras e, por mais que no começo mostre-se reticente, acaba se divertindo no final. Os dois tornam-se muito unidos não só por testemunharem um crise (fato que será uma espécie de fio condutor da trama), mas porque Taro faz com que a garota lembre de sua própria infância. Ele também tem ressentimentos com sua própria família, também tenta fugir de sua própria vida, mas ao contrário de Haru, o menino ama aquela cidade com todas as suas forças, e essa paixão irá contagiá-la.

tom sawyer página colorida

Um dia irei ao Japão para saber se o interior é bonito assim mesmo ou se o mangakas me enganam

O que mais me impressionou na obra foram as reflexões propostas pelo enredo e, principalmente, pela protagonista. Algumas delas eu já expus na introdução desse texto, mas existem muitas outras, acredite. O que significa crescer? Porque os adultos são tão preconceituosos, verdadeiros juízes ambulantes, martelando veredictos morais à torto e à direito? Haru se faz todas essas perguntas (com outras palavras, claro), e convida o leitor a fazer uma análise sobre sua própria vida. Onde é nosso lar?

“O que um lugar precisa ter para ser um lugar para se voltar?”
(Haru)

A arte merece um parabéns especial. A magnífica capa transmite ao leitor a leveza do enredo e serenidade do enredo; os cenários construídos com muito cuidado dão vida à pequena cidade na qual a trama ocorre; o traço bem sutil nas personagens ajuda a tirar o peso da história mesmo em momentos de tensão; luz e escuridão são usados de maneira inteligente, oferecendo contrastes de acordo com o andamento da trama; e alguns quadrinhos são propositalmente traçados de maneira mais fraca, quase que como se estivessem se apagando…ideal para um mangá sobre lembranças e reflexões.

tom-sawyer feels

Feels…

Classifiquem “Tom Sawyer” da maneira que quiserem: adaptação, shoujo, emotivo…eu gostaria de usar outra palavra: inteligente. Esse mangá propõe ao leitor uma viagem até seu próprio passado, uma visita aos seus próprios medos e anseios. Proponho que você, que lê essa review, compre também essa passagem e divirta-se, sofra, chore e reflita com “Tom Sawyer”. Vale MUITO à pena.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

5 comentários em “Review: Tom Sawyer

  • 2 de novembro de 2014 em 13:44
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    Eu comprei ontem o mangá, ainda não li mas realmente a jbc caprichou!

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  • 13 de dezembro de 2014 em 04:28
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    Ok, você me convenceu, agora vou ter que caçar nas bancas por ai hahaha

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  • 13 de dezembro de 2014 em 04:51
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    então….MY JOB HERE IS DONE!

    *FLIES AWAY*

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  • 25 de março de 2015 em 15:12
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    acabo que eu comprei mas não terminei, acabei achando a historia meio parada, ate meio “chata”, talvez porque não tenha intendido, ou porque não faça meu tipo de historia, mas depois dessa analise decidir dar uma chanca, dessa vez analisando esses pontos rsrs. valeu excelente trabalho.

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