Review: Só você pode ouvir (Kimi ni shika Kikoenai)

“Leia, ouça, sinta essa história”

Não é de hoje que a JBC vem premiando seus leitores com publicações one-shot de qualidade. Os dois exemplos mais recentes são “Tsumitsuki” (cuja review da Drop Hour você lê aqui http://drophour.com.br/2014/07/31/review-tsumitsuki/) e “Tom Sawyer” (a nossa análise dessa obra você encontra nesse link http://drophour.com.br/2014/10/29/review-tom-sawyer/). A estrela dessa vez é o mangá “Só você pode ouvir”, cujo título original é o impronunciável Kiminishika Kikoenai. A obra original é um conto, de autoria de Otsuichi, mas foi adaptada para mangá por Kiyohara, o mesmo de “Another”. Felizmente, mais uma vez fomos agraciados com uma bela história.

Uma rápida sinopse da história: uma colegial chamada Ryo Aihara é a única de sua classe que não possui um celular. Naturalmente tímida, desajeitada e introvertida, a menina possui mais dificuldade ainda de se enturmar por não poder trocar mensagens ou ligar para seus amigos. Para tentar afastar sua solidão, a menina imagina que tem um celular: ela chega ao ponto de definir mentalmente seu modelo, o toque do despertador, das ligações, etc… Sua vida continua seguindo normalmente, até que um dia seu celular imaginário toca, e ela se surpreende quando ouve a voz de um rapaz do outro lado da linha, um outro adolescente chamado Shinya Nozaki. Será isso uma alucinação? Se esse rapaz é real, quem é ele? Porque ela consegue contáctá-lo telepaticamente? E como isso é possível?

capa-So-vc-PodeOuvir-jbcA sutil capa de “Só você pode ouvir”

Essas perguntas são feitas tanto pelo leitor quanto pela própria protagonista. Mas durante a obra elas ficarão em segundo plano, graças à algo que chamo de “Efeito Death Note”: nos esquecemos das questões do tipo “como isso é possível?” para nos focarmos em “e agora, o que vai acontecer?”. Me apeguei tanto à relação entre Shinya e Ryo que por diversos momentos me esqueci que a conversa entre eles era puramente telepática. Mesmo estando há quilômetros de distância – ela está em Yokohama e ele em Hokkaido, façam a conta aí de quantos km isso dá – eles compartilham experiências, estão juntos o tempo todo, tal qual bons amigos fariam.

3735-1_AYPYL-Kimi_ni_Shika_Kikoenai_ch01_001Scan da versão americana…um dia perceberemos que a maior guerra de nossos tempos é pelo direito de falar e sermos ouvidos

Se tivesse que indicar um sentimento que norteia a obra, escolheria “Solidão”. A Solidão tão típica de nossa sociedade individualista, a mesma solidão tão comum entre adolescentes, que se fecham em grupos e excluem aqueles que não atendem ao status quo desejado por estes. A mesma solidão potencializada e muitas vezes cristalizada por uma sociedade de consumidores na qual ter ou não acesso à uma nova tecnologia define sua capacidade de socialização (indico o livro “Vida para Consumo”, de Zygmunt Bauman, para quem quer ler mais um pouco sobre isso). Eu mesmo vivi algo semelhante ao plot desse mangá: na minha quinta série eu era o único da minha sala sem celular, e por vezes me sentia excluído por não poder participar das discussões…Dramas adolescentes? Problemas de primeiro mundo? Talvez…Mas lembrem-se: cada nova tecnologia tem um potencial de inclusão tão grande quanto o de exclusão.

“Provavelmente eu sou a única colegial que não tem celular. Na verdade, eu queria também ter um celular como todo mundo. Conectadas através de seus celulares, as pessoas são como uma rede…mas eu não faço parte desses ‘nós'”.
(Ryo Aihara)

Por último, mas não menos importante, um destaque para a JBC. Primeiro pela iniciativa dos one-shot, sem a qual perderíamos obras como esta. Segundo pelo cuidado na tradução e diagramação: “Kiminishika Kikoenai” é um péssimo título para ser veiculado no Brasil, e a empresa foi muito espertar em intitular a obra com a versão brasileira, “Só você pode ouvir”. Dizem que não se deve comprar um livro pela capa, e nunca faço isso: mas o faço pelo título, e esse ficou belíssimo. E por último: parabéns à JBC pelo editorial ao final da obra. Deixarei em destaque aqui embaixo o último parágrafo do mesmo.

“Se está lendo este editorial depois de ler a história, sugiro que ligue para alguém especial para você. Você vai precisar dividir seus sentimentos”
(Editorial de “Só você pode ouvir”)

“Só você pode ouvir” é mais um belo one-shot a chegar ao mercado brasileiro. Se você quer se emocionar com uma história curtinha, mas intensa, e com uma bela mensagem sobre como enfrentar a solidão, essa obra foi escrita, desenhada e publicada para você. E depois que você terminar de ler, gostaria que seguisse o mesmo conselho dado pela equipe da JBC. Eu já estou com o telefone na mão, aliás. Até a próxima, galera.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

Um comentário em “Review: Só você pode ouvir (Kimi ni shika Kikoenai)

  • 13 de dezembro de 2014 em 04:24
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    Comprei o mangá sem saber o que esperar. Toda fez que vejo um volume único minha mão fica coçando para comprar…e realmente o título deixa um mistério no ar, e foi difícil de resistir (ainda bem).
    A história é linda, e adorei por deixar um “nó” na mente, depois que você fecha o mangá e fica refletindo na vida haha
    Adorei a resenha, vou até ver os links que você recomendou! Haha té mais!

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  • 13 de dezembro de 2014 em 04:49
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    Obrigado pelos elogios! Olhe os links sim, assim como todo nosso site! Tem reviews de mangás, hqs, jogos…ah, e se quiser pedir crítica de algum item específico ou indicar alguma leitura, só falar ^^

    Abraços 🙂

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  • 13 de dezembro de 2014 em 15:26
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    Cara, parabéns pelo post muio bem feito, não imaginei que kiminishika kikoenai fosse tao bom, foi o primeiro manga que me comoveu e me deixou emocionado, diria ate que é um dos meus melhores mangás junto com prophecy, a JBC ta se superando cada vez mais.

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  • 20 de dezembro de 2014 em 00:14
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    Valeu Gleidson! ^^

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  • Pingback: Review: Kizu (Feridas) | Drop Hour

  • 10 de maio de 2015 em 14:14
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    Parabéns pelo review! Eu comprei o mangá e me senti tocado pelo enredo comovente e reflexivo. Precisamos de mais obras como essas aqui no Brasil.

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