Review: Kizu (Feridas)

“Divida essa leitura comigo”

Como você lida com suas dores? De que maneira você alivia seu sofrimento? Você procura se distrair e esquecer o que te aflige? Desconta seus problemas em outra pessoa? Ou procura uma válvula de escape saudável para poder seguir com sua vida? “Kizu” (ou Feridas) é um mangá que trata exatamente sobre a busca por respostas para esses e outros dilemas que enfrentamos todos os dias. E quase sempre sozinhos.

“Kizu” é um one-shot (volume único) de Otsuichi, mesmo autor de “Só você pode ouvir” – se não conhece esse mangá, confira aqui a review: http://drophour.com.br/2014/11/19/review-so-voce-pode-ouvir-kiminishika-kikoenai/  – e do artista Hiro Kiyohara (Another e também de Só você pode ouvir). A obra chega ao Brasil pelas mãos sempre competentes da JBC, então temos o padrão elevado de qualidade: páginas coloridas, pósfácio do autor, editorial especial, tudo pelo módico preço de R$ 13,90.

02_kizu__149041A capa do mangá. Cabe uma cornetada: a cor da fonte nesse fundo dificulta em muito a leitura

O roteiro gira em torno de feridas físicas e emocionais. Keigo, um menino de 11 anos, possui um histórico familiar conturbado. Seu pai, um homem alcoólatra e violento, está internado no hospital. Já a mãe, por sua vez, abandonou o lar sem aviso. Forçado a viver com seus tios relapsos, Keigo tenta esconder suas dores, mas as têm constantemente expostas por alunos de seu colégio, que praticam bullying com ele. É durante um desses confrontos que ele conhece Asato, o outro protagonista, um menino tão silencioso quanto solitário. Ao decorrer da história, Keigo (e o leitor) descobrem dois fatos relevantes da vida de Asato. O primeiro o torna único: o menino é capaz de absorver ferimentos físicos das pessoas, curando-as quase que instantaneamente. O segundo fato infelizmente o iguala a milhares de crianças, inclusive Keigo: Asato vêm de um lar destruído. Seu pai foi brutalmente assassinado e sua mãe, a autora do crime, cumpre sua sentença na cadeia.

“Na vida, não interessa o quanto eu ande, sempre acabo chegando em um beco imundo.Por causa do mau cheiro de cachorro morto misturado com esgoto, parece que vou enlouquecer a cada esquina que viro. Talvez o mundo inteira seja assim”.
(Keigo)

É nesse cenário que surge uma bonita relação entre Keigo e Asato. Garotos da mesma idade e com histórias semelhantes, eles começam a dividir suas feridas – tanto físicas quanto emocionais. Ambos bolam planos para conseguir curar outras pessoas com o incrível poder de Asato, buscando assim tornar a vida das pessoas a sua volta um pouco melhor. E aos poucos percebem que, juntos, podem diminuir o sofrimento de suas próprias almas.

Kizu3Scan da versão em inglês. Os dois garotos encontram, um no outro, uma nova família

Kizu oferece profundas reflexões sobre dor, castigo e perdão, principalmente através das reflexões solitárias de Keigo. Durante a obra, o garoto se pergunta porque sua família se foi, o que levou seu pai a tornar-se o homem violento que marcou sua vida, porque não tem direito a um lar feliz e, principalmente, porque temos de passar boa parte de nossa vida sofrendo sozinhos. Durante o mangá, também me fiz algumas dessas perguntas. Também me fiz outras tão inquietantes quanto. Não posso dizer que encontrei respostas, mas me deparei com algo tão importante quanto: alívio. Alívio por perceber que podemos dividir nosso sofrimento com nossos iguais.

“Nós passamos por coisas terríveis. E não tínhamos a força para evitar a infelicidade. Mas acho que isso vale para qualquer um. As pessoas não suportam a tristeza, não conseguem aguentar de jeito nenhum, e… Eu rezei. Rezei para que chegasse logo…um mundo onde ninguém tivesse que se ferir”.
(Keigo) 

“Kizu, ou simplesmente “Feridas”, é mais uma bela história em formato de mangá. Se você gostou de “Só você pode ouvir”, Kizu é leitura obrigatória. Divida essa história comigo. E, se quiser, suas dores também.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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