Primeiras Impressões: Zero Eterno (Eien no Zero)

“Zeros podem ser eternos, mas memórias não o são”

Zero Eterno. Provavelmente o melhor nome de HQ que vi nas bancas esse ano – rivaliza fortemente com o “Só você pode ouvir”. Se é uma tradução literal ou adaptada do título original (“Eien no Zero”), pouco me importa. Zero Eterno encanta. Vende. É forte. Flutua entre vida e morte. E conquista.

Coloquemos os pingos nos “is”: “Zero Eterno” é uma adaptação. A obra original é um livro, de autoria do japonês Naori Hyakuta. O romance tornou-se um best-seller na terra do sol nascente, recebendo adaptações também para cinema e televisão.  A arte do mangá ficou por conta de Souichi Sumoto, e a publicação em território brasileiro está nas mãos da competente JBC. O mangá será lançado em cinco volumes.

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Vagabundo esse ano tá apelando nas capas…uma mais bonita que a outra

Vamos à tradicional descrição da sinopse: Kentaro Saeki é um jovem japonês que encontra-se estagnado na vida. Ele não tem um emprego, não estuda, enfim, não sai da zona de conforto. Quando sua irmã propõe que ambos pesquisem juntos a biografia de seu avô, sua perspectiva sobre a vida acaba se transformando drasticamente. Isso porque seu avô, Kyuzo Miyabe, foi um piloto do esquadrão Tokkotai japonês durante a Segunda Guerra Mundial. O esquadrão era, grosseiramente falando, o bravo pelotão japonês disposto a matar e a morrer pela sua nação – os famosos Kamikaze. Mas existe alguma relevância em investigar a história de um soldado japonês que perdeu sua vida em uma guerra há tantos anos encerrada?

Sim. Toda. Porque revisitar o passado e entender o que nos constitui enquanto indivíduo, nação e sociedade significa estar apto a dar o próximo passo. Pois não existe futuro sem memória. Imagine por um momento como seria tomar uma decisão sem ter nenhum dado passado como referência. Como você saberia se é uma boa ideia sair de casa se não conseguisse lembrar de já ter saído antes? Viveríamos completamente desorientados, incapazes de projetarmos as mais simples ações futuras.

O que Kentauro busca – e ao fim desse primeiro volume já começa a encontrar – são as raízes de sua família, e por consequência, do seu próprio ser. Lembre-se que estamos falando de uma história que se passa na cultura japonesa: família e tradição ainda são valores muito fortes no país, apesar da (pós)modernização cultural. Ser neto de um herói de guerra possui um significado. Assim como ouvir que seu avô pode ter sido apenas um terrorista tem um impacto direto na vida de Kentaro. O passado nunca morre: apenas adormece até que seja despertado em nosso presente.

Outros tópicos são muito bem abordados durante a trama e merecem o devido destaque. A discussão sobre a construção da narrativa biográfica é bem desenvolvida. Os fatos são sempre um só ou variam de acordo com aquele que os narra? A memória também se faz presente no enredo, pois o passado é atualizado a cada novo dia. O que hoje consideramos uma lembrança positiva, amanhã pode ser considerado uma mácula, digna de ser apagada de nossa história. Zeros podem ser eternos, mas memórias não o são.

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Adicionar sons de avião aqui

Voltando a pôr os pés no chão: gostei da arte do mangá, principalmente das cenas que retratam os conflitos aéreos durante a segunda guerra mundial.  Com relação à qualidade da publicação em si, fica aqui o elogio ao material de capa, à qualidade do papel das páginas e o cuidado da JBC em colocar um glossário bem completo e uma tradução que simplifica muita coisa sem tirar as características originais da obra. Minha única ressalva é o preço salgado do mangá: R$ 23,90 me pareceu exagerado, mesmo com esses predicados citados anteriormente. Não entrarei em detalhes nesse aspecto nem farei uma crítica mais contundente visto que não estou inteirado sobre os bastidores da empresa, mas em todo caso, doeu um pouquinho no bolso.

“Zero Eterno” é um delicioso passeio pelo passado, pela cultura japonesa e pelas memórias de uma época conturbada na qual homens perderam suas vidas pelos seus países. Ainda tem muita história pela frente – literalmente – mas o que já deu para perceber é que devemos estar preparados para desconstruir nossas certezas e preconceitos, assim como Kentaro está constantemente sendo obrigado a fazer ao investigar a vida de seu falecido avô. Espero ansiosamente pelas lições às quais o volume 2 trará.

90

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

Um comentário em “Primeiras Impressões: Zero Eterno (Eien no Zero)

  • 21 de janeiro de 2016 em 01:42
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    Este Mangá me despertou o interesse no estudo de fontes orais e a questão da memória, foi por ele que agora estou cursando a matéria de Fontes Orais na minha graduação.

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