Primeiras Impressões: Limit

“Vale TUDO para se adequar a um grupo social?”

Limit, um dos novos lançamentos da Editora JBC, não é recomendado para menores de 16 anos. Eu entendo os critérios da classificação indicativa no Brasil e respeito a lógica por trás da sua implementação, mas sinceramente acredito que este mangá – pelo menos o número 1, já que ainda não li o resto – deveria ser indicado para adolescentes de todas as idades. Bullying, inveja, crueldade, jogos mentais juvenis… devemos ler mais sobre esses assuntos e trazer tais discussões para o nosso cotidiano.

Eu já esperava que Limit fosse um mangá diferenciado, afinal a autora é Keiko Suenobu, a mesma de “Vitamin“, brilhante obra sobre bullying, cultura do estupro e exclusão social no ambiente escolar. Novamente a autora propõe um debate sobre essas questões delicadas que todos sabem que acontecem, mas que muitos preferem fechar os olhos e fingir que não existem. Dessa vez o foco é quase que exclusivo no bullying, mas o cenário muda um pouco se comparado ao de Vitamin. Agora temos o elemento sobrevivência envolvido, tornando os acontecimentos que se desenrolam mais brutais.

Limit-1Konno maravilha, eu não gosto de você…

A sinopse vende a obra praticamente sozinha. A protagonista é Konno, uma colegial japonesa bem fútil. A menina faz parte de um grupo de amigas bem superficiais que julgam a tudo e a todos, praticando bullying com diversos colegas de classe. A garota se submete ao seu grupo e decide não questionar esse tipo de comportamento, se deixando levar. Uma das meninas que sofre mais com as alfinetadas e ofensas dirigidas pelo grupinho é Morishige, personagem sobre a qual falarei um pouco mais daqui a pouco. A rotina de aulas, estudos e provocações é interrompida quando em um passeio de colégio, o ônibus da turma despenca de um barranco e quase todos os passageiros morrem em decorrência do acidente. A partir daí, Konno e mais algumas alunas tem de se virar para sobreviver enquanto o resgate não chega.

print 1COMEÇOU O CAÔ! O ÔNIBUS CAPOTOU, O ÔNIBUS CAPOTOU!

E aí começa a brutalidade. Tanto física quanto psicológica. A psicológica é a principal e de longe mais pertinente em termos de debate social: quais são as consequências do bullying? Será que o conceito de amizade não é deturpado em nosso ambiente escolar? Vale TUDO para se adequar aos grupos sociais? Os diálogos, os flashbacks, as conclusões moralmente duvidosas às quais Konno chega durante suas reflexões, todo o enredo de maneira geral apresenta uma crítica ao nosso modelo de sociedade e como isso afeta nossos jovens.

print 2Escolas: LITERALMENTE um treino para a vida em sociedade.

Quando digo que existe sim uma brutalidade física, é porque as meninas desse mangá realmente chegam às vias de fato nessa história. Afinal, quando o que está em jogo é sua própria sobrevivência, a diplomacia tende a ficar em segundo plano. Outras medidas são tomadas, algumas muito mais violentas. É interessante como que basta tirar as leis do nosso ambiente para que esqueçamos de quaisquer outras cortesias e regras sociais: a lei do mais forte começa a imperar.

Apesar de Konno ser um prato cheio em termos de polêmicas e reflexões, o grande destaque dessa primeiro volume é Morishige. Todos conhecemos, durante nosso ensino fundamental ou médio, uma Morishige: a menina esquisita, que não se adequa aos padrões de beleza, calada, e grande alvo de bullying dos grupos mais populares. Nunca há uma razão para as ofensas e implicâncias: a destruição social de outro ser humano parece se justificar, sem precisar de mais explicações. Ao fim do período colegial, normalmente os agressores despedem-se de seus alvos e nada mais acontece. Mas as marcas ficam, afinal, existe um ditado popular que diz “quem apanha esquece, quem apanha não”. E nesse mangá, em uma situação na qual a antiga configuração social se extingue e um “novo mundo” de desespero e luta pela sobrevivência é criado, Morishige tem a chance de executar sua vingança, de um jeito um tanto quanto perturbador. Mesmo assim, sei não hein…acho que to torcendo por ela.

print 3PRA CIMA DELAS!

O número 1 de Limit confirmou o que eu já esperava: um mangá diferente, crítico e provocador. Mas também foi além, acrescentando um pouco de ação e brutalidade os quais eu não esperava. Já separei o dinheiro para completar a coleção e me preparei psicologicamente pros próximos acontecimentos.

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Lucas Bastos

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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