Opinião: Mangá – Demografia x Gênero

Muitos fãs de anime e manga estão habituados com os termos shounen, seinen, shoujo e jousei. Esses mesmos termos acabam gerando algumas discussões entre os otakus no diz respeito a “qual gênero é melhor”, dentre esses que acabei de citar. No entanto, será que essa divisão e “conflito” são de fato justificáveis? Vou expor um pouco do que penso sobre o assunto no diz respeito ao LEITOR BRASILEIRO de manga.

Primeiramente, essa divisão não pode ser aplicada no Brasil (e na verdade vem deixado de fazer sentido até mesmo no Japão) pelo simples fato de se tratar da DEMOGRAFIA das revistas onde as obras são publicadas e não do GÊNERO da obra. No Japão, os mangas saem em capítulos semanais ou mensais (na maioria dos casos) em revistas destinadas a garotos, garotas, homens ou mulheres, assim, os termos shounen e etc são usados para identificar o tipo de revista nas quais essas obras são publicadas. Usemos, por exemplo, o manga Death Note: embora seja um shounen, seu gênero, ao meu ver, seria suspense. Para alguns isso pode ser obvio, mas muitos ainda não conseguem fazer essa distinção e acham realmente que shounen é o gênero da obra.

001-capac001Death Note Yu-gi-oh, ambos shounen, mas será que são do mesmo gênero?

Além disso, é muito comum vermos fandoms mais setorizados que acabam tendo preconceitos com diversas obras de outros gêneros. Pessoas que gostam de seinen e falam que shounen é muito infantil e exagerado; fãs de shounen que acham que shoujo é só coisa de menina e que só existem shoujos de relacionamento adolescentes e etc. Esse preconceito é algo que acompanha a cultura otaku no Brasil e acaba fazendo com que muitos fãs de anime e mangá deixem de ter contato com excelentes obras por uma “cegueira” boba. E, infelizmente, algumas pessoas formadoras de opinião acabam reforçando essa segregação como a famosa declaração em uma palestra no Anime Friends 2014 que foi: “Vamos lançar um shoujo que não é chato”, dando a entender que os demais shoujos são chatos.

Demografia ShounenSe todo shoujo fosse chato, Orange não seria um dos melhores mangás que eu li recentemente.

Apesar de falas como essas, certas atitudes, como a da JBC de reforçar que as escolhas dos seus títulos são feitas pelo GÊNERO e não pela revista onde são publicadas no Japão, são ótimas para quebrar esse preconceito no nosso país. Dessa maneira o leitor tem mais chances de ter contato com obras de diversas demografias de uma só vez e, ao ler coisas de diferentes nichos, poderá perceber que há gêneros que até se repetem em demografias diferentes (sim, amigo, você pode achar um romance em um shounen).

Demografia JBCCalendário de lançamentos da JBC para 2015, olha a variedade de títulos!

O mercado brasileiro de mangás vem crescendo como nunca e acho que esse é o momento para os fãs desse tipo de quadrinho começar a se aprofundar mais nessa mídia. Obvio que ninguém tem condições (principalmente financeiras) de comprar todos os mangás da banca, mas as vezes pode ser uma boa ideia dar uma chance a alguma coisa que você não está acostumado a ler. Quem sabe aquele shoujo que você preferiu ignorar não pode ter uma história muito mais cativante do que o seu shounen preferido? Ou quem sabe aquele mangá com meninas fofinhas na capa é, na verdade, um seinen bem interessante?

Demografia SeinenMadoka tem uma carinha de shoujo de meninas fofinhas né? Mas é só carinha mesmo, porque é um seinen.

Concluindo a discussão, meu conselho é o seguinte: não se prenda a demografia, busque histórias que te agradem e pronto. A leitura nunca é demais e as vezes você pode ser surpreendido positivamente com coisas que você realmente não esperava.

E vocês, o que acham disso? Existe realmente uma demografia melhor?  Deixem nos comentários as suas opiniões.

Facebook Comments

Lucas Mizumoto

Professor de japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente .

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *