Crítica: Com um roteiro confuso e muitas pontas soltas, a segunda temporada de “Sense8” acaba caindo de qualidade, mas ainda demonstra potencial

Desde sua primeira temporada Sense8 se mostrou uma série sobre as relações humanas em uma roupagem de ficção científica. Com um elenco bem diversificado e um enfoque na conexão entre as pessoas, a série agradou ao público por tocar em temas recorrentes na nossa sociedade em um contexto recorrente da cultura pop.

A relação dos personagens, cada vez mais aprofundada, cria vínculos com os espectadores e as subtramas dos protagonistas acabam sendo o grande destaque da trama. O descobrimento daquele grupo de pessoas como seres diferentes e como pessoas impares em seus contextos sociais revela como o roteiro sabe trabalhar com o seu elenco.

Em seu segundo ano, a série das irmãs Wachowskis buscou expandir o universo apresentado no ano anterior e desenvolver melhor os conceitos relacionados aos homus sensorium. As descobertas biológicas, genéticas e aperfeiçoamento das suas habilidades dão um passo à frente do que vimos no primeiro ano da série. Uma decisão necessária, mas que acabou sendo mal executada. As ideias apresentadas não são aprofundadas e embora tenhamos ganchos óbvios para a próxima temporada, o resultado final é roteiro corrido e que não sabe encontrar o equilíbrio entre as suas duas propostas.

A maneira como o vilão é construído e o jogo de perseguição acabam sendo repetitivas e se tornam desinteressantes muito rápido. A fuga constante de Will e Ryle parece não se desenvolver e, quando se desenvolve, é uma virada tão repentina e mal explicada que não convence. Enquanto isso, as explicações da organização “do mal” são cada vez mais confusas e criam uma complexidade desnecessária. Toda a questão neurológica desenvolvida e explorada por Sussurros só faz com que a série crie uma falsa atmosfera intelectual, mas que no final não é.  Uma escolha de trabalhar a parte da ficção que, infelizmente, não funciona e destoa do rumo que a história vinha tomando.

Mas, apesar do problema na trama principal, todas as subtramas agradam. Destaques principalmente para Sun e sua busca por vingança, Lito e a sua aceitação com gay em uma sociedade preconceituosa, Wolfgang e sua interação com o submundo Alemão e Kala e seus conflitos amorosos. O distanciamento dos dois principais do grupo (Will e Ryle) acaba sendo fundamental para o amadurecimento de todos os personagens. Histórias isoladas, mas que são bem mais desenvolvidas que a trama principal e que motivam o espectador a continuar com a série. Se o roteiro fosse dividido de maneira mais coerente, talvez tivéssemos um equilíbrio, mas a quantidade de problemas sem solução que são adicionados acabam sendo maiores do que as tramas com fim.

Outro ponto que consegue segurar esse segundo ano é a ação que continua muito bem executada. Sun e Wolfgang continuam dominando nesse quesito e as coreografias de lutas continuam tão boas quanto o ano anterior e mostra que as Wachowskis continuam mantendo o alto nível desde Matrix. Nesse quesito, vale destacar a luta entre clusters onde vemos um grande potencial para futuras lutas entre sensitivos no próximo, e provavelmente último, ano. A ação prova que, apesar dos problemas, a direção e o roteiro ainda sabem para onde querem ir e conseguem salvar episódios repetitivos de um fiasco.

Com um roteiro confuso e apresado, a segunda temporada de Sense8 acaba não agradando tanto quanto a primeira, mas ainda consegue se destacar. As atuações, as cenas de ação e principalmente os arcos individuais dos personagens continuam brilhando e fazendo da série ser o que é. As irmãs Wachowskis têm um desafio para o seu próximo ano que, dependendo do rumo que tomar, pode fechar o arco dos homus sensorium com chave de ouro ou de maneira pretenciosa. Até o momento as expectativas são positivas, mas o desenrolar dos últimos episódios do segundo ano deixam a dúvida na mente dos fãs.

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Mizumoto

Estudante de letras: português-japonês, amante de cinema e telespectador de desenho japonês desde que se entende por gente.

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