Crítica: “O Rastro” é mais uma prova de que o cinema brasileiro pode ser versátil e competente

“Felizmente, menos do mesmo”

Em meu cotidiano procuro constantemente lutar contra meus preconceitos. Tanto na minha vida pessoal quanto nas minhas atividades profissionais, faço um esforço para desfazer algumas ideias cristalizadas. É difícil, mas muito difícil mesmo, porém é necessário não só para o nosso crescimento, mas para o bem da sociedade. O mundo geek, por exemplo, seria bem mais agradável e gostoso em diversos momentos se todos adotássemos essa postura. Pois bem, vou explicar o porquê desse momento “Conselhos do He-Man”: quando fui ao cinema hoje conferir a pré-estreia de “O Rastro“, do momento em que saí de casa até os créditos finais, lutei contra dois preconceitos meus: o de achar todo filme de terror ruim e o de considerar que o cinema brasileira não é capaz de lidar com esse gênero de maneira adequada. Agora posso dizer que essas minhas opiniões foram duramente abaladas pois o filme não apenas é bom, mas é uma prova de que o cinema nacional pode nos surpreender positivamente se dermos chances a ele.

“O Rastro” chega às telonas nesse início de maio. Com direção de J.C. Feyer, estrelado por atores de destaque no cenário nacional, como Rafael Cardoso (João), Leandra Leal (Leila), Claudia Abreu (Olivia), Jonas Bloch (Heitor), além do falecido Domingos Montagner (Governador Azevedo). O filme é um híbrido de suspense e terror, um gênero que considero muito bem-vindo ao cinema nacional, tão saturado de produções do tipo “comédias meio sem graça com algum ator do Porta dos Fundos envolvido”.

Trailer tenso 1

O enredo de “O Rastro”, se não é exatamente original ou muito surpreendente, ao menos não me desapontou. João é um médico que trabalha na Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. O governo do Estado organizou uma operação para fechar um dos hospitais mais antigos da região, o São Tomé, alegando falta de condições para o funcionamento do mesmo. Os pacientes tem de ser transferidos para outros hospitais, e dentre essas pessoas está uma menina, Júlia de Souza. Durante a transferência, a menina simplesmente some e ninguém do hospital ou da secretaria sabe explicar com isso aconteceu. Junte esse mistério com um hospital caindo aos pedaços, com frequentes blecautes e no qual um suicídio ocorreu recentemente e você sabe o que isso significa, não é? João e os espectadores viverão grandes aventuras.

O filme é exatamente o que você espera de qualquer filme de terror hollywoodiano, mas também é um pouco mais. O sustos estão aqui; as cenas escuras nos quais apenas uma pequena lanterna o protagonista por um corredor sinistro também; até cortes, enquadramentos, enfim, a estética do longa lembra os filmes estadunidenses. Mas ao mesmo tempo existem algumas sutis diferenças, elementos próprios da história e do nosso cotidiano que constroem a identidade ao filme. A trama é tipicamente brasileira e familiar a qualquer um que more especialmente no Rio de Janeiro: descaso com a saúde pública, corrupção, crise financeira, etc. O longa também não exagera em efeitos especiais tentando se equiparar aos block-busters hollywoodianos, preferindo causar espantos e apreensão com elementos simples como jogo de luzes e ruídos estrondosos ou macabros precisamente encaixados nas cenas.

Trailer tenso 2

O roteiro do filme, como adiantei lá no início, não é brilhante, mas é convincente. Durante quase toda a sessão fiquei me perguntando se havia realmente algo de sobrenatural no filme ou se a construção da narrativa é que levava o espectador a encarar os fatos ocorridos dessa forma – não vou dar spoiler de qual foi a minha conclusão. A explicação por trás da trama não é mirabolante e tampouco imprevisível: na metade do filme eu já tinha uma ideia do que estava por trás do desaparecimento da menina e acertei meu palpite. Entretanto, isso acaba tornando-se uma virtude para o filme: prefiro uma história de terror minimamente plausível do que um drama sem lógica alguma com personagens estúpidos, assombrações esquisitas, espíritos malignos, etc. Mas isso é uma questão de gosto, então não acharei estranho se você considerar esse roteiro “pé no chão” um ponto negativo.

Destaco positivamente a atuação de Rafael Cardoso como o médico/burocrata João, que tenta a todo custo salvar uma menina que ele mal conheceu mas que já considerava pacas. João tem muitas dúvidas, sofre, insiste, fica paranoico e acoado e o ator consegue transmitir esses diversos estados de humor muito bem: através da sua atuação sentimos o personagem definhando. Também elogio bastante a participação de Leandra Leal como Leila, a esposa grávida de João, que no início do filme parecia que ia apenas cumprir o papel de esposinha frágil e preocupada com o marido, mas que principalmente da metade pro final cresce de maneira absurda na trama e rouba a cena.

Eu acho muito legal quando um personagem foge do estereótipo ao qual estamos acostumados.

“O Rastro” é mais uma prova de que o cinema brasileira pode ser versátil e nos presentar com boas produções. Por mais que não seja um fã do gênero, é ótimo ver que nosso audiovisual pode entregar mais do que comédias e romances genéricos. O filme não é magnífico, não deve concorrer a Oscar nem nada do tipo, mas cumpre até mais do que promete e provavelmente não deixará você insatisfeito após o término da sessão.

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Luklab

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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