Crítica: “The Walking Dead – Busca e Destruição”

“Agonizando”

Existe um ditado que diz “1 é pouco, 2 é bom e 3 é demais”. Mas e quando uma das suas franquias favoritas chega ao sétimo livro, será que a mesma lógica se aplica? Ou será que é possível chegar a soluções diferentes e criativas com a mesmo fórmula? “The Walking Dead- Busca e Destruição“, mais recente lançamento da vertente literária do universo de Robert Kirkman, oscila entre bons e maus momentos e deixa os leitores com a sensação de que está cada vez mais difícil colher bons frutos dessa mesma plantação.

“The Walking Dead – Busca e Destruição” chegou ao Brasil em 2017 novamente pelas mãos da Galera Record – que, a propósito, ainda não se deu ao trabalho de alterar as informações da contra-capa, um impressionante e questionável trabalho de manutenção de identidade visual em suas obras. Mais uma vez Jay Bonansinga é o autor e também novamente a grande estrela da companhia é Lilly Caul, a líder da comunidade de Woodbury. Dessa vez a missão de Lilly de proteger seus companheiros é ainda mais árdua, já que  um grupo paramilitar atacou Woodbury de maneira rápida e eficiente, eliminando alguns dos moradores e sequestrando as crianças locais. Rapidamente Lilly monta um pequeno grupo de operativos e sai em busca do resgate – e claro, de vingança.

A capa do livro. Segue o mesmo padrão da franquia – zumbis fazendo alguma coisa aleatória. 

A frase que talvez melhor defina esse livro também é um dito popular: “de boas intenções o inferno está cheio”. A ideia do livro, embora não seja inédita na história da cultura pop, é interessante se pensarmos que Lilly e os habitantes de Woodbury – a cidade que ainda resiste mesmo estando com meio galão de combustível restante há uns cinco livros – nunca enfrentaram um desafio como esse. Lilly, em sua longa trajetória dentro do mundo pós-apocalíptico zumbi, enfrentou errantes, um déspota insano, um líder religioso e diversos relacionamentos fracassados… mas um grupo paramilitar é uma novidade.

Infelizmente, esse elemento é mal aproveitado durante a trama. Em vez de desfrutarmos de novas situações e dilemas dentro da narrativa, o leitor é “presenteado” com cenas de ação repetitivas e uma história que, ao ficar centrada 90% do tempo na perspectiva de Lilly e seu fiel escudeiro, Tommy Dupree, torna a leitura mais cansativa do que precisava ser. O vilão do livro segue a mesma linha de boas intenções desperdiçadas: em vez de tornar-se um personagem diferente e até único dentro de um universo tão complexo e extenso quando o de The Walking Dead, Jay Bonansinga constrói tão mal a sua personalidade que ele acaba tornando-se, na verdade, o antagonista mais fraco até agora.

“Lily olha para ele.
– Eu não acho que…

– Não estou falando só de mim e de você, falo de todos nós, que ficamos arrogantes, estragando o mundo com, sei lá, nossa poluição e guerra, ganância, lixo tóxico e essas coisas, e agora estamos, tipo, sendo castigados. 
– Tommy…
– Entendo por que Deus nos castiga (…) Eu também nos castigaria se essa chance. Somos um bando de imbecis, se quer minha opinião. Merecemos passar por isso”
(pág. 152)

O que mais me incomodou durante a leitura desse sétimo livro da franquia é a sensação de que Jay Bonansinga não tem mais ideias originais para os livros. Não estou dizendo que a culpa é exclusivamente dele: “The Walking Dead” como um todo expandiu-se tanto que venho percebendo essa falta de novas ideias tanto nas HQs quando nos jogos. Ainda assim, Robert Kirkman, por exemplo, vira e mexe nos surpreende com algo inédito. Bonansinga, que já nos proporcionou tantas reviravoltas e e grandes sacadas – os zumbis condicionados por luz e o pastor-vilão-maníaco Jeremiah, por exemplo, foram brilhantes – hoje parece ter dificuldade de escrever algo que já não tenhamos visto em outros momentos.

“The Walking Dead: Busca e Destruição” aposta em uma narrativa dinâmica e totalmente focada em Lilly e sua saga em busca pela salvação das crianças de Woodbury. Infelizmente, o potencial da narrativa é sub-aproveitado e na maior parte do tempo o leitor se vê acompanhando mais do mesmo. Ainda que o final da trama indique que ainda teremos mais Bonansinga em The Walking Dead e nas nossas prateleiras, a pergunta fica no ar: será que ainda veremos algo de diferente no universo literário da franquia?

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Luklab

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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