Review: Sob a Redoma

“Deixe a redoma de lado e desfrute do maravilhoso caos abaixo dela”

“Sob a Redoma” é superlativo. Poderia ter utilizado diversos outros adjetivos para começar essa crítica e até virei a elencar outros ao decorrer do texto, mas esse é o mais adequado, de longe. Pois ele traduz em uma simples palavra o quanto a obra é grandiosa. Seja em tamanho (de páginas), em complexidade, em número de personagens e plot twists, mas principalmente no grau de emoção que Stephen King consegue incutir tanto nos momentos banais quanto nos cruciais para o desenvolvimento do enredo.

A obra (cujo título original é “Under The Dome”) foi publicada em 2009, mas só chegou ao Brasil em 2012, pela Suma de Letras. Sim, existe uma adaptação para a TV, um seriado homônimo, mas do qual não falarei nada pela péssima qualidade de adaptação – que inclusive levou ao cancelamento da mesma. Essa crítica é exclusiva sobre o livro escrito por Stephen King e entregue com muito carinho pelo autor à nossa ávida leitura.

Antes de falar sobre Redomas ou qualquer coisa relacionada a isso, para entendermos o enredo é essencial conhecermos o cenário no qual a história se passa. Stephen King criou, nesse livro, uma cidadezinha tipicamente do interior dos Estados Unidos chamada Chester’s Mill, assim como dezenas de seus habitantes – quase todos protagonistas em algum momento – e até alguns cachorros, esses devidamente nomeados. Esses cidadãos não são figuras aleatórias jogadas nas páginas: eles possuem backgrounds próprios, personalidades bem desenvolvidas ao decorrer do livro, relações de amizade e inimizade entre si, etc. Tal riqueza de detalhes faz com que o leitor sinta que as personagens realmente se conhecem e viveram juntos a vida (quase toda). Quer dizer, exceto Dale Barbara. Mas eu chegarei nele daqui a pouco.

Então eis que um belo dia, uma gigantesca redoma cai sobre Chester’s Mill. Quem estava fora, não consegue mais entrar, nem na base do tiro, porrada e bomba. Quem está dentro, não sai mais. Em resumo: aqueles cidadãos da pequena cidade terão de ser mais vizinhos ainda do que de costume, pois não tem como abandonar a região. Dentre as diferentes reações dos diversos personagens da cidade às quais o leitor terá oportunidade de acompanhar, duas foram as que mais me chamaram a atenção: a do segundo-vereador da cidade, Jim Rennie, e a do cozinheiro forasteiro da cidade, Dale Barbara.

Falemos de Barbara então. Chamado carinhosamente (e às vezes não) de “Barbie”, Dale é um ex-soldado americano em busca de um pouco de paz em sua vida. Ele não encontrou isso em Chester’s Mill, onde se viu em uma grande confusão com o filho de Jim Rennie, chamado Júnior e alguns de seus amigos, dias antes do evento estranho ocorrer. Quando a redoma acaba prendendo-o na cidade junto com seus mais novos inimigos, uma espécie de inferno pessoal tem início em sua vida. Dale é uma espécie de Capitão América de Chester’s Mill: sujeito justo, ético, bom moço por excelência, ajuda os velhinhos a atravessar a rua, aquela coisa né. Toda essa caracterização torna sua personagem vital para a história, pois ao decorrer dos dias sob a redoma, muitas pessoas vão perdendo essas mesmas características que ele mantém.

Um desses indivíduos menos virtuosos é Jim Rennie, na minha opinião o grande astro do livro. “Big Jim”, como é chamado na região, é o manda-chuva do local. Típico político falastrão, o peixe grande no pequeno lago de Chester’s Mill, manipulador, corrupto até o osso, inescrupuloso, etc. Em determinados momentos fiquei até me perguntando se ele não seria um psicopata, mas acho que não chega a tanto. Big Jim adora poder, adora mandar, adora ter a pequena cidade e seus habitantes em suas mãos. E não é uma situação bizarra, sem explicação e sem solução tal qual uma redoma gigantesca que irá fazê-lo perder o controle de seu pequeno feudo, não é? Definitivamente ele é um dos melhores “vilões” que já encontrei em minhas andanças literárias, forçando você a odiá-lo, desprezá-lo, às vezes até mesmo a rir dele.

Quando comecei a ler “Sob a Redoma”, achei que fosse me deparar com uma progressão de eventos e plots no melhor estilo The Walking Dead: recursos acabando, longos debates sobre o fim da civilização, a dificuldade do homem em viver sem seus pequenos luxos, etc. Mas Stephen King pegou outro caminho, igualmente interessante: a decadência moral, tanto pessoal quanto coletiva, de seres humanos frente a uma situação adversa. Pense comigo: se você tivesse a (estranha) garantia de que nem o governo dos EUA consegue chegar até onde você está, de que modo começaria a agir com seus próprios semelhantes? A resposta pode ser perturbadora, tal qual boa parte da narrativa de King.

Ah sim, tem uma Redoma também nesse livro. É claro que é essa estrutura anormal e virtualmente indestrutível que dá início à trama, mas depois ela praticamente fica em segundo plano, pois quem dita o ritmo da história são os próprios personagens e suas ações. Mortes acontecem, tragédias ocorrem a cada virada de página, sangue espalha-se por todo lado…e na maioria das vezes a Redoma em si nada tem a ver com isso.

Como não acredito em livros perfeitos e muito menos em críticas que não apontam defeitos, vamos as minhas pequenas ressalvas. Em determinado momento da história, ainda na metade do livro, senti que o autor força o resultado de alguns eventos para construir a base de acontecimentos futuros na trama. Exemplos: alguns personagens são incrivelmente estúpidos, outros parecem ser feitos de ferro ou tem uma sorte monstruosa… Não é nada que quebre a narrativa, é simplesmente um recurso que o King usa para que a história ganhe em complexidade para que o clímax seja mais forte. Mesmo entendo a ideia por trás, confesso que me peguei pensando “cara…meio forçado isso aqui, mas beleza, vamos ver no que dá”. Uma outra crítica é o excesso de spoilers do escritor, que adianta o desfecho de alguns eventos de maneira, ao meu ver, desnecessária. Alguns personagens morrem cedo demais ou de maneiras um tanto tolas (existe uma então, perto do final, que meu Deus, essa desafia a lógica), mas não é nada que tire o brilho da obra.

“Sob a Redoma”, como já disse lá no começo, é superlativo. E ponto. Um ótimo pontapé inicial para você que não conhece Stephen King e quer ter uma noção do poder do autor em construir cenários ricos, personagens bigger-than-life e episódios brutais e chocantes. Uma grande reflexão sobre a consciência humana e sua frágil manutenção em momentos caóticos, o livro por vezes leva o leitor a concluir o quão ridículos e prepotentes nós somos. A versão física tem um preço um pouco salgado, variando entre 60 e 70 reais, enquanto que minha linda versão digital foi adquirida por menos de 30 (viva o Kindle!). Seja nas prateleiras ou na memória do seu leitor, “Sob a Redoma” merece um lugarzinho especial.

90

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Luklab

Mestre em Comunicação, 7,8 na escala Nerd, fã obsessivo de FMA, Marvel fanboy e defensor da tese de que George Martin é melhor que Tolkien.

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